Interrompo o papo.
— Não, meu amigo, não posso concordar com você. A ética me cobra um posicionamento.
Conversávamos sobre um político que, embora tivesse desviado recursos públicos, realizara uma obra importante para a população. Você argumentava que, diante dos benefícios alcançados, talvez fosse justo relativizar sua conduta. Afinal, milhares de pessoas haviam sido favorecidas.
Compreendo seu raciocínio, mas não posso acompanhá-lo.
Não que lhe falte ética, meu amigo. Talvez o entusiasmo com os resultados tenha se antecipado à reflexão, conduzindo seus argumentos por caminhos que, em outras circunstâncias, você próprio questionaria.
Reconheço sua inteligência, sua consciência e sua capacidade de argumentação. É justamente por isso que me inquieta vê-lo defender uma ideia que, a meu ver, não se sustenta.
Desde quando os bons resultados tornam aceitáveis os meios ilícitos?
Se admitirmos que uma finalidade nobre justifica qualquer procedimento, quem estabelecerá os limites do que podemos fazer em nome do bem?
A inteligência pode iluminar o caminho da verdade, mas também pode construir justificativas brilhantes para nos afastar dela.
Ainda assim, não quero convencê-lo pela força dos meus argumentos, muito menos silenciar sua voz. Mesmo discordando da sua ideia central, defendo seu direito de expô-la.
Afinal, a amizade não exige concordância, assim como o respeito não exige submissão.
O que não posso aceitar é que, em nome da amizade, eu precise silenciar minha consciência.
Porque discordar de você não significa ser seu adversário. Talvez seja justamente a minha maneira de continuar sendo seu amigo.
E, se a verdade exige alguma coragem, que tenhamos ambas: a de defender aquilo em que acreditamos e a de reconhecer, quando necessário, que podemos estar errados.
Afinal, meu amigo, não é a concordância que nos torna leais uns aos outros, mas a liberdade de discordar sem perder o respeito — e sem abandonar a consciência.
Pense nisso!