Sebastiao
E a vida continua
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Textos
O DESPERTAR DA REALIDADE
Houve um tempo em que tudo era perfeito.
Ou, quem sabe, foi o meu olhar que um dia esteve perfeito. Eu ainda não conhecia as sombras, ou talvez simplesmente não soubesse reconhecê-las. Meus olhos só encontravam beleza, luz e cores. O mundo parecia um lugar onde as coisas faziam sentido, onde a vida seguia uma ordem silenciosa e onde o amanhã guardava sempre alguma promessa.

Mas o tempo passa, e com ele alguma coisa se transforma dentro de nós.
A maturidade é um choque de realidade. É o instante em que despertamos de um sonho e nos deparamos com a boca escancarada da existência, revelando verdades para as quais nem sempre estamos preparados. De repente, aquilo que parecia simples se torna complexo. Aquilo em que acreditávamos começa a ruir, e as certezas que nos sustentavam revelam suas primeiras rachaduras.

O mundo começa a nos atingir de outra maneira. Passa a nos comparar, a nos cobrar, a exigir posicionamentos. Quer saber quem somos, o que pensamos, o que conquistamos e aonde pretendemos chegar. Como se existir não fosse suficiente. Como se precisássemos justificar nossa presença a cada passo.

Ensinaram-nos tantas coisas. Aprendemos a falar, a escrever, a calcular, a reconhecer os caminhos do mundo. Aprendemos a buscar o sucesso, a competir, a construir e a conquistar. Mas quase ninguém nos ensinou a compreender o que acontece dentro de nós quando a tristeza nos invade, quando o medo nos paralisa, quando a raiva nos domina ou quando a ausência de alguma coisa que nem sabemos nomear nos deixa vazios.

Não nos ensinaram a lidar com nossos sentimentos e emoções. E talvez uma das maiores dificuldades da existência seja justamente essa: passamos boa parte da vida tentando compreender o mundo exterior sem sequer conhecer os territórios que habitam nosso próprio interior.

Por isso sofremos. Não apenas pelo que nos acontece, mas também pelo significado que atribuímos ao que nos acontece. Sofremos pelo que perdemos, pelo que desejamos e não alcançamos, pelo que esperamos dos outros e pelo que os outros esperam de nós. Sofremos até mesmo por acontecimentos que nunca existiram, mas que nossa mente insiste em ensaiar como se fossem inevitáveis.

Vivemos em meio ao caos. Um caos que nem sempre se apresenta como desordem visível. Muitas vezes, ele se esconde atrás de sorrisos, de rotinas, de palavras bem escolhidas e de uma aparente tranquilidade. Por fora, seguimos vivendo. Por dentro, travamos batalhas que ninguém vê.

É nesse cenário que construímos nossas defesas.
Criamos muros para impedir que a dor entre, máscaras para esconder nossas fragilidades e distâncias para evitar novas decepções. Aprendemos a desconfiar, a controlar, a silenciar. Fazemos de tudo para não sofrer novamente, como se fosse possível atravessar a existência sem nos expormos às suas incertezas.

Essas defesas nos protegem, mas também nos desprotegem de outra maneira. Impedem que algumas dores nos alcancem, mas podem impedir, igualmente, que o amor nos encontre. Evitam certas feridas, mas nos afastam da intimidade, da confiança e da liberdade de sermos quem realmente somos.

É assim que nascem muitos dos nossos traumas: nas experiências que nos ferem, nos abandonos que não conseguimos compreender, nas palavras que permanecem ecoando dentro de nós muito depois de terem sido pronunciadas.

Às vezes, a dor passa, mas a maneira como aprendemos a nos defender dela permanece.
E então, sem perceber, começamos a responder ao presente com os medos do passado. Desconfiamos de quem não nos feriu, afastamo-nos de quem deseja se aproximar e enxergamos ameaças onde talvez existam apenas possibilidades. Não porque sejamos incapazes de amar, mas porque uma parte de nós ainda acredita que amar é correr o risco de reviver antigas dores.

Talvez amadurecer seja perceber que nem todas as nossas certezas são verdades, que nem todas as nossas defesas são necessárias e que nem todo sentimento precisa se transformar em uma ordem que devemos obedecer.
Sentir medo não significa que devemos fugir. Sentir raiva não nos obriga a ferir. Sentir tristeza não significa que perdemos a capacidade de ser felizes.

As emoções são mensagens, não sentenças. Precisamos aprender a escutá-las sem permitir que decidam, sozinhas, os rumos da nossa vida.
Talvez a verdadeira maturidade não esteja em deixar de sentir, mas em aprender a sentir sem nos perdermos dentro daquilo que sentimos.
E talvez a vida nunca tenha sido perfeita. Talvez a perfeição estivesse na nossa incapacidade de enxergar suas imperfeições.

Éramos menos conscientes das contradições do mundo e, por isso, conseguíamos habitar nele com uma leveza que mais tarde confundimos com felicidade.
Mas não precisamos escolher entre a inocência que perdemos e a dureza que adquirimos. Existe um caminho entre as duas: o de quem conhece as sombras, mas não renuncia à luz; o de quem reconhece a crueldade do mundo, mas não permite que ela determine a própria maneira de amar.

Porque amadurecer não deveria significar perder a capacidade de se encantar. Não deveria significar tornar-se frio, desconfiado ou indiferente. Deveria significar aprender a enxergar a realidade sem abandonar completamente a beleza que um dia encontramos nela.

Hoje, talvez eu já não veja o mundo com os mesmos olhos de antes. Sei que existem dores, injustiças, perdas e despedidas. Sei que nem todas as pessoas permanecerão, que nem todas as promessas serão cumpridas e que nem tudo o que amamos poderá ser preservado.

Ainda assim, quero acreditar que a beleza continua existindo.
Talvez ela esteja menos nas coisas perfeitas e mais nas coisas verdadeiras. No abraço que chega sem ser pedido, na palavra que acolhe, na presença que permanece quando tudo parece desmoronar. Talvez esteja na coragem de recomeçar, na disposição de perdoar e na delicadeza de não transformar nossas feridas em armas contra os outros.

No fim, talvez a grande tarefa de viver seja esta: aprender a habitar um mundo imperfeito sem permitir que suas imperfeições destruam aquilo que temos de mais humano.

E, quando finalmente compreendermos que não podemos controlar tudo o que acontece dentro ou fora de nós, talvez descubramos uma forma diferente de paz.
Não a paz de quem nunca sofreu, nunca teve medo ou nunca se decepcionou.
Mas a paz de quem já conhece a escuridão e, mesmo assim, continua procurando a luz.
Porque talvez crescer não seja descobrir que o mundo deixou de ser perfeito.
Talvez seja descobrir que nunca precisou ser perfeito para continuar valendo a pena.

Sebastião Neiva
Sebastião Neiva
Enviado por Sebastião Neiva em 19/10/2026
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