Hoje me encanto com meus desencantos.
Os desencantos são esses instantes em que vemos a beleza pelo avesso. Quando aprendemos a amar pelo avesso. Quando o coração diz sim e a vida responde não.
Mas não devemos nos acostumar com os desencantos. Precisamos compreendê-los, porque, muitas vezes, eles são a ponte que nos conduz ao crescimento do espírito.
O encanto é lindo, mas parece previsível, quase perfeito. O desencanto, por sua vez, surpreende, limita, magoa, fere. Desmonta nossas certezas e nos obriga a olhar para aquilo que, até então, preferíamos não ver.
É como saborear um vinho: um doce, outro amargo. Há quem prefira a doçura, há quem aprecie a amargura e há quem descubra prazer em ambos. Qual taça você prefere?
Eu, hoje, já não sei se prefiro alguma delas. Aprendi que o doce pode embriagar nossas ilusões, enquanto o amargo pode despertar nossa consciência. Um nos convida a permanecer, o outro nos ensina a partir. E ambos, à sua maneira, deixam marcas em nossa alma.
Talvez a maturidade seja justamente isso: compreender que nem tudo o que nos encanta nos faz bem, assim como nem tudo o que nos desencanta nos faz mal.
Há perdas que nos devolvem a nós mesmos. Há despedidas que abrem portas que a permanência mantinha fechadas. Há verdades que doem porque chegam para destruir aquilo que já não podia continuar de pé.
E, ainda assim, não devemos romantizar a dor, nem transformar o sofrimento em morada. O desencanto pode nos ensinar, mas não precisa nos aprisionar. A vida não nos pede que amemos as feridas, e sim que aprendamos a não sangrar eternamente por elas.
Hoje, quando alguma coisa perde o brilho aos meus olhos, tento não perguntar apenas o que perdi. Pergunto também o que finalmente consegui enxergar.
Porque há uma beleza silenciosa nas coisas que deixam de nos iludir. Uma liberdade estranha em abandonar o que imaginávamos perfeito. E uma espécie de renascimento quando descobrimos que podemos continuar amando a vida, mesmo depois de conhecer suas imperfeições.
Talvez o verdadeiro encanto não esteja em viver sem desencantos, mas em não permitir que eles nos roubem a capacidade de sentir.
Afinal, a alma também amadurece entre contrastes. E quem já experimentou o amargo sem perder a vontade de viver talvez aprenda a saborear o doce sem a necessidade de torná-lo eterno.
No fim, não importa tanto a taça que escolhemos, mas a consciência com que bebemos.
E você? Quando a vida lhe oferece uma taça amarga, você a rejeita, tenta adoçá-la ou procura compreender o que ela veio lhe ensinar?