Sebastiao
E a vida continua
Capa Textos Fotos Perfil Livro de Visitas Contato
Textos
SONHOS DESNUDOS
Quando eu era menino, tinha um sonho.

Queria uma bicicleta.

Hoje parece um desejo pequeno, quase insignificante. Mas naquela época não era. Uma bicicleta, para nós, era quase um luxo. Havia coisas mais importantes para uma família com pouco dinheiro, e os sonhos precisavam aprender a esperar.

Meu pai, porém, fez o que pôde. Economizou, procurou e conseguiu comprar uma bicicleta usada, velha, mas em bom estado.

Para mim, não era velha.
Era a bicicleta que eu sonhara.
Eu não via as marcas do tempo, nem pensava que alguém já tivesse sido dono dela. Eu via apenas duas rodas que, de repente, pareciam capazes de me levar para qualquer lugar.

Hoje eu poderia comprar trinta bicicletas.
Mas já não consigo andar de bicicleta.
É uma das pequenas ironias da vida: às vezes, aquilo que desejamos durante anos finalmente se torna possível justamente quando deixamos de poder desfrutá-lo.

Mais tarde, quando jovem, tive outro sonho.
Uma motocicleta.
Consegui comprar uma pequena, de pouca potência. As maiores, mais bonitas e mais velozes, pertenciam a um mundo que estava além das possibilidades da nossa família.

Mas aquela pequena motocicleta me bastava.
Ela me dava uma sensação que talvez nenhuma motocicleta pudesse realmente comprar: liberdade.
O vento no rosto, as ruas passando, a sensação de que o mundo era grande e que eu ainda tinha muito tempo para conhecê-lo.

Hoje poderia comprar uma motocicleta grande e potente.
Mas já não posso pilotá-la.

O corpo envelheceu. O trânsito mudou. As ruas ficaram mais agressivas. E aquilo que um dia representava liberdade talvez hoje representasse apenas risco.

Novamente, a vida me oferece o que o passado desejou.
Só que o passado não está mais aqui para receber.

Tenho hoje um carro simples.
E não sinto falta de um carro luxuoso.
Talvez porque tenha aprendido uma coisa que demoramos muito para aprender: nem sempre queremos aquilo que pensamos querer.

A bicicleta não era apenas uma bicicleta.
Era a liberdade de um menino.
A motocicleta não era apenas uma motocicleta.
Era a liberdade de um jovem.

Talvez eu nunca tenha desejado realmente as máquinas.
Eu desejava o que elas prometiam.
E talvez seja assim com quase todos os nossos sonhos.
Passamos a juventude imaginando que seremos felizes quando tivermos uma casa melhor, um carro melhor, mais dinheiro, mais reconhecimento, mais alguma coisa.

E então corremos atrás.
Trabalhamos.
Esperamos.
Adquirimos.
E, quando finalmente conseguimos, descobrimos que a felicidade não estava exatamente ali.
Ou pior: descobrimos que chegamos tarde.

É estranho pensar nisso.
Podemos passar metade da vida desejando alguma coisa e a outra metade descobrindo que ela já não tinha a importância que imaginávamos.

Por isso, às vezes me pergunto:
Por que os sonhos se realizam quando já não precisamos deles?

Talvez porque a vida não tenha obrigação de respeitar o nosso calendário.
Ou talvez porque os sonhos não sejam promessas.
São apenas desejos que lançamos sobre o futuro.
E o futuro, quando finalmente chega, já é outro presente.

Há também uma crueldade silenciosa no tempo: ele não nos tira apenas as coisas. Ele modifica o significado delas.
A bicicleta que um dia significava liberdade hoje poderia significar dificuldade.
A motocicleta que um dia significava aventura hoje poderia significar perigo.
O carro que hoje me transporta com tranquilidade talvez parecesse absolutamente sem graça para aquele jovem que queria sentir o vento no rosto.

Nós mudamos.
E, quando mudamos, nossos sonhos também deveriam mudar.
Talvez essa seja uma das maiores dificuldades de envelhecer: perceber que não somos obrigados a continuar desejando aquilo que um dia desejamos.

É preciso aprender a deixar alguns sonhos para trás sem sentir que fracassamos.
Alguns sonhos simplesmente cumpriram sua função.
Eles nos fizeram caminhar.
Nos deram esperança.
Nos ajudaram a atravessar períodos difíceis.
E talvez isso já seja suficiente.

Por isso ainda acredito que é preciso sonhar.
Sempre.
Mas aprendi a não fazer da realização do sonho uma condição para ser feliz.
Porque a realidade é quase sempre diferente do sonho.
O sonho é perfeito porque não conhece limites.
A realidade precisa lidar com o tempo, com o corpo, com o dinheiro, com as circunstâncias, com as perdas e com aquilo que não podemos controlar.

Talvez a sabedoria esteja justamente em aprender a viver entre os dois.
Sonhar com o amanhã sem desprezar o hoje.
Desejar sem transformar o desejo em prisão.
Planejar o futuro sem deixar o presente esperando.

Hoje posso comprar aquilo que, um dia, parecia impossível.
Mas não posso comprar a infância.
Não posso comprar a juventude.
Não posso voltar àquela rua onde uma bicicleta velha parecia um passaporte para o mundo.
Não posso voltar ao tempo em que uma pequena motocicleta era suficiente para me fazer sentir invencível.

E talvez seja essa a maior riqueza que o tempo nos revela:
não é aquilo que conseguimos possuir que define a nossa vida, mas aquilo que conseguimos viver enquanto ainda era possível vivê-lo.

Passamos muito tempo aprendendo a conquistar.
Pouco tempo aprendendo a desfrutar.
Aprendemos a ganhar dinheiro, mas demoramos para aprender a gastar tempo com quem amamos.
Aprendemos a construir o futuro, mas esquecemos que o presente não pode ser guardado.
E então, quando finalmente entendemos, percebemos que o tempo não devolve troco.

Talvez por isso eu tenha parado de pedir grandes coisas à vida.
Hoje prefiro pequenas alegrias.
Uma conversa sem pressa.
Uma lembrança que ainda me faz sorrir.
A presença de alguém querido.
Um dia tranquilo.
Um café tomado devagar.
E a consciência de que, apesar de tudo que não posso mais fazer, ainda existem coisas que posso viver.

Talvez eu finalmente tenha entendido que os sonhos não precisam ser grandes.
Precisam apenas chegar no tempo certo.
Porque há sonhos que podem ser comprados.
Há sonhos que podem ser realizados.
E há sonhos que, quando finalmente compreendemos o seu verdadeiro significado, descobrimos que estavam dentro de nós desde o começo.

A bicicleta nunca foi uma bicicleta.
A motocicleta nunca foi uma motocicleta.
Era a vida passando diante de mim.
E eu, sem saber, apenas queria acompanhá-la.


Sebastião Neiva
Sebastião Neiva
Enviado por Sebastião Neiva em 06/10/2026
Copyright © 2026. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Comentários
Capa Textos Fotos Perfil Livro de Visitas Contato