Textos
O ESTRANHO QUE FUI
Às vezes volto ao meu passado como quem entra numa casa abandonada.
Reconheço as paredes, alguns objetos, mas não reconheço quem morava ali.
Sou eu quem aparece nas lembranças, sou eu quem tomou aquelas decisões, quem percorreu aqueles caminhos.
E ainda assim, há um estranho diante de mim.
Pergunto-me como pude ser tão pouco quando poderia ter sido tanto.
A vida passava e eu quase não percebia.
Os dias chegavam, os dias partiam, e eu permanecia adormecido dentro de mim mesmo.
Hoje olho para trás e sinto mais espanto que saudade.
Não posso voltar e ensinar àquele homem o que só aprendi a ser depois.
Talvez essa seja a crueldade silenciosa do tempo:
a sabedoria chega quando já não podemos usá-la para corrigir o passado.
Mas também não posso desprezá-lo.
Ele era apenas um homem tentando existir com a consciência que possuía.
O homem que fui não existe mais.
Restaram suas marcas, seus erros, suas perguntas.
E talvez eu esteja aqui por causa delas.
Ainda não sou quem gostaria de ser.
Mas hoje quero sentir os dias, perceber o tempo enquanto ele acontece.
Não posso salvar o homem que fui.
Mas posso, finalmente, não abandonar o homem que sou.
Sebastião Neiva
Sebastião Neiva
Enviado por Sebastião Neiva em 03/10/2026
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