Sebastiao
E a vida continua
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NA VERDADE, QUEM SOU?
Naquela manhã, eu estava parado diante do espelho do banheiro, ainda com o rosto marcado pelo travesseiro. A água do chuveiro tinha deixado o vidro embaçado, e, por alguns segundos, meu reflexo aparecia e desaparecia conforme eu passava a mão sobre o vapor.

Foi quando pensei em quantas versões de mim já haviam passado por aquele mesmo espelho.
O menino que queria ser alguma coisa quando crescesse.
O jovem que tinha certeza de que sabia para onde estava indo.
O homem que aprendeu, algumas vezes da maneira mais difícil, que a vida raramente pergunta se estamos preparados para mudar.

Durante muito tempo, pensei que soubesse quem eu era.
Construí uma imagem de mim feita de lembranças, escolhas, erros, acertos, medos e pequenas certezas. Disse a mim mesmo: sou assim. E, sem perceber, comecei a confundir aquilo que pensava sobre mim com aquilo que realmente sou.

Mas a vida tem uma maneira silenciosa de desmontar nossas certezas.
Ela tira coisas. Muda planos. Afasta pessoas. Faz nascer outras. Às vezes, basta uma ligação inesperada, uma despedida, uma porta que se fecha ou simplesmente uma manhã diante do espelho para percebermos que já não somos exatamente quem fomos.

Passei a mão outra vez sobre o vidro.
Meu rosto apareceu inteiro.
E então surgiu uma pergunta incômoda:
Se tudo aquilo que acredito ser pode mudar, quem sou eu quando nada disso está disponível para me definir?

Talvez eu não seja a minha profissão.
Talvez não seja a história que conto sobre mim.
Talvez não seja sequer aquilo que os outros enxergam quando pronunciam meu nome.

Talvez eu seja algo muito mais difícil de reconhecer.
Talvez eu seja aquilo que permanece quando minhas certezas caem.
Quando não preciso provar nada.
Quando ninguém está olhando.

Quando o passado já não pode ser mudado e o futuro ainda não chegou.
Fiquei ali por mais alguns segundos, em silêncio.
Depois enxuguei o rosto, vesti a camisa e saí do banheiro.
Nada havia sido resolvido.
Mas talvez alguma coisa tivesse começado.

Porque talvez conhecer a si mesmo não seja descobrir, de uma vez por todas, quem somos.
Talvez seja perceber que, depois que todas as respostas desaparecem, ainda existe alguém ali.
Quieto.
Respirando.
Permanecendo.
E talvez esse alguém seja, finalmente, quem somos.


Sebastião Neiva
Sebastião Neiva
Enviado por Sebastião Neiva em 24/09/2026
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