Sebastiao
E a vida continua
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Textos
HÁ QUANTO TEMPO?
Há quanto tempo você não vê um pôr do sol sem olhar para o relógio?

Há quanto tempo não acorda cedo
apenas para testemunhar o nascimento do dia,
sem fotografá-lo,
sem publicá-lo,
sem precisar provar a ninguém
que esteve ali?

Há quanto tempo você não dá um sorriso livre,
debochado,
autêntico,
daqueles que nascem antes do pensamento
e não pedem licença para existir?

Há quanto tempo você não se senta
embaixo de uma árvore
e permite que a sombra faça por você
aquilo que tantas palavras não conseguem?

Ficar.
Respirar.
Sentir.

Há quanto tempo você não toca a natureza
como quem reencontra alguém
que sempre esteve esperando?

Há quanto tempo você não olha para quem está ao seu lado
e diz simplesmente:
eu te amo?
Sem motivo.
Sem data.
Sem medo de parecer frágil.

E há quanto tempo você não percebe
que pode estar acompanhado
e ainda assim sentir uma solidão
que ninguém consegue abraçar?

Há quanto tempo você não namora a lua?
Não a lua das fotografias,
mas aquela que aparece silenciosa
pela janela
e parece perguntar
se você ainda se lembra de quem era.

Há quanto tempo você não faz uma prece verdadeira?
Não aquela repetida por hábito,
mas aquela que nasce do fundo da alma
quando já não sabemos
a quem pedir ajuda.

Há quanto tempo você não tem
um momento especial consigo mesmo?
Sem celular.
Sem pressa.
Sem cobranças.
Sem a necessidade de ser produtivo.
Apenas você.

A correria do dia a dia
foi nos ensinando a chegar depressa
a lugares onde nem sabemos
se queremos estar.
Corremos para ganhar tempo
e perdemos a vida
no caminho.

E então chegam o medo,
a desconfiança,
a descrença,
a ansiedade,
a solidão.
E começamos a chamar de normal
aquilo que está nos adoecendo.

Talvez tenhamos complicado demais
a arte de viver.
Talvez viver simples
seja justamente o maior ato de coragem
em um mundo que insiste
em tornar tudo complexo.

Talvez seja preciso voltar.
Voltar para o silêncio.
Para a conversa sem pressa.
Para o abraço demorado.
Para o amor dito em voz alta.
Para a fé que não precisa de plateia.
Para a árvore.
Para a chuva.
Para o cheiro da terra.
Para a lua.

E, principalmente,
voltar para dentro de nós.
Porque talvez a vida
não esteja esperando que façamos mais.

Talvez esteja apenas esperando
que voltemos a sentir.
E quando você olhar novamente para o céu e perceber que o sol está se despedindo,
talvez descubra, com alguma surpresa,
que o mundo continuou girando
enquanto você estava ocupado demais
tentando sobreviver.

E talvez ainda haja tempo.
Tempo para parar.
Tempo para amar.
Tempo para acreditar.
Tempo para olhar o céu
e simplesmente dizer:
eu estou aqui.


Sebastião Neiva
Sebastião Neiva
Enviado por Sebastião Neiva em 04/09/2026
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