AS BELEZAS DO MUNDO
Há uma coisa curiosa nos nossos olhos: eles se acostumam.
Acordamos todos os dias e vemos o mesmo céu, as mesmas árvores, as mesmas ruas, as mesmas pessoas. E, de tanto olhar, deixamos de enxergar. O costume é um dos maiores inimigos da beleza.
O sol nasce, e quase não percebemos. A chuva cai, e reclamamos. Um arco-íris aparece no céu, e às vezes continuamos apressados, como se o mundo não tivesse acabado de abrir uma janela colorida diante de nós.
Mas a beleza está ali.
Está nos montes que se levantam silenciosos no horizonte, no oceano que parece não ter fim, na cachoeira que despenca cantando, na mata que respira sem pedir licença, no brilho distante das estrelas. Está no voo de cada pássaro, na delicadeza de suas penas, na maneira particular como cada criatura encontra seu lugar no mundo.
Talvez o problema não esteja na falta de beleza, mas na pobreza do nosso olhar.
Inventamos padrões para quase tudo, inclusive para a beleza. Decidimos quem é bonito, quem não é; qual corpo merece admiração, qual rosto deve ser considerado belo, qual cor de pele, qual cabelo, qual traço. Mas quem nos deu autoridade para colocar limites naquilo que Deus fez tão diverso?
A natureza nunca parece ter se preocupado com os nossos padrões.
Ela fez flores de todas as cores, árvores de todos os formatos, pássaros de todos os tamanhos. Criou montanhas imponentes e pequenas flores que nascem escondidas entre as pedras. E nenhuma delas parece sentir vergonha de ser exatamente aquilo que é.
Por que nós deveríamos?
Tenho aprendido a mudar meu padrão de beleza. E foi uma mudança bonita. Quando comecei a olhar menos com os olhos e mais com a alma, percebi que a beleza estava espalhada por toda parte.
Passei a entender que há rostos que se tornam mais bonitos depois que conhecemos a história que carregam. Há pessoas que talvez não chamem nossa atenção no primeiro instante, mas que, depois de algumas palavras, iluminam o ambiente inteiro.
Madre Teresa talvez não correspondesse aos padrões de beleza que inventamos. Chico Xavier também não. Mas quem conseguiria olhar para a grandeza de suas almas e dizer que não eram pessoas bonitas?
Há uma beleza que o espelho não consegue refletir.
É a beleza da bondade, da humildade, da generosidade, da capacidade de perdoar, de cuidar, de estender a mão. É aquela beleza que não diminui com a idade, não depende da roupa e não precisa de maquiagem.
E me lembro de uma história que ouvi quando ainda era adolescente.
Conheci um casal em que a mulher, aos olhos dos padrões convencionais, era uma verdadeira princesa: loira, olhos claros, corpo escultural. O marido era um homem magro, negro, completamente fora dos padrões de beleza que costumávamos admirar.
Certo dia, ouvi aquela mulher dizer, com uma ternura que nunca esqueci:
— Eu não troco o meu negrinho por nenhum príncipe do mundo. Para mim, ele é o homem mais perfeito que já conheci.
Talvez naquele momento eu tenha entendido, sem perceber, uma das coisas mais bonitas da vida: a beleza também depende dos olhos de quem ama.
Para ela, ele era perfeito porque ela enxergava o que os outros não enxergavam.
E talvez seja exatamente isso que o amor faz: ele limpa nossos olhos.
Deus, em sua infinita perfeição, não parece ter criado o mundo para que fosse uniforme. Criou a diversidade. Criou contrastes. Criou diferenças. E talvez a beleza esteja justamente aí: no fato de que nenhuma pessoa é exatamente igual à outra.
Imagine se todas as flores fossem rosas. Se todos os pássaros tivessem o mesmo canto. Se todos os rostos fossem iguais. Se todos os céus tivessem a mesma cor.
Seria um mundo muito pobre.
A beleza precisa de diferenças para existir em toda a sua plenitude.
Por isso, talvez valha a pena fazer uma pequena experiência.
Amanhã, quando sair de casa, tente olhar devagar.
Olhe para uma árvore que você já viu mil vezes. Observe uma pessoa que normalmente passaria despercebida. Repare no céu. Escute um pássaro. Veja o rosto de alguém querido sem pressa. E, principalmente, tente enxergar aquilo que não aparece no espelho.
Crie o seu próprio padrão de beleza.
Um padrão mais generoso, mais doce, mais humano.
Talvez você descubra que o mundo não ficou mais bonito.
Foi o seu olhar que aprendeu a enxergar a beleza que sempre esteve lá.
Sebastião Neiva
Sebastião Neiva
Enviado por Sebastião Neiva em 25/08/2026