Vejo teu vulto ao longe, na curva da estrada,
E minha alma insiste em te ver na alvorada.
Minhas pupilas te buscam no escuro,
Como quem procura um passado seguro.
Toco num rosto imaginário,
Que nunca encontrei em nenhum calendário.
Encanto-me com um sorriso inventado,
De alguém que talvez nunca tenha estado.
Sonho com um passado que não vivi,
Com tantos momentos que nunca senti.
Desenho teu rosto no azul da paisagem,
E te encontro nos azulejos, feito miragem.
Às vezes acredito que o tempo voltou,
Que aquilo que perdi, de repente, chegou.
São cenas tão vivas, tão cheias de emoção,
Que parecem sonhos nascidos da solidão.
Será que é a saudade fazendo isso?
Criando no vazio um breve feitiço?
Ou será minha alma, cansada e perdida,
Pedindo um socorro no meio da vida?
Alucinações... talvez sejam verdades
Que a mente constrói quando sente saudades.
São sombras que dançam no quarto vazio,
São vozes que chegam no meio do frio.
Talvez a saudade, quando ultrapassa a dor,
Crie novos caminhos procurando o amor.
E aquilo que a vida não pôde entregar
A mente inventa só para reencontrar.
Por isso te vejo onde não estás,
Te encontro em lugares que não existem mais.
E, mesmo sabendo que tudo é ilusão,
Ainda te encontro dentro do meu coração.
Se amar é guardar aquilo que partiu,
Talvez minha alma jamais te perdeu.
E essas alucinações que a saudade criou
Sejam apenas o amor dizendo: “ainda estou.”
Sebastião Neiva