Sebastiao
E a vida continua
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QUANDO AS ESTRELAS MUDAM DE BRILHO
Certa noite, olhando para o céu, pensei,  as estrelas parecem eternas.
Estão lá, silenciosas, algumas tão distantes que a luz que vemos hoje começou sua viagem muito antes de nós existirmos. Olhamos para elas e temos a impressão de que nada muda. Mas muda. Tudo muda.
As estrelas também nascem, crescem, envelhecem e um dia deixam de existir da maneira como as conhecemos. Algumas simplesmente perdem o brilho; outras têm finais grandiosos. E, no entanto, aquilo que parecia ser um fim pode ser apenas uma transformação.
Talvez a vida seja assim.
Nós também somos estrelas por um breve instante. Chegamos, iluminamos alguns caminhos, encontramos pessoas, fazemos amizades, amamos, aprendemos, deixamos pequenas marcas e, quando percebemos, o tempo já passou.
E o tempo não pede licença.
Leva cabelos, força, lugares que conhecemos, pessoas que amamos. Às vezes leva alguém querido antes que estejamos preparados. E essa talvez seja uma das maiores dificuldades da vida: compreender que amar alguém não significa poder conservá-lo para sempre.
A gente gostaria de guardar as pessoas numa gaveta do coração, protegidas do tempo. Mas não existe gaveta capaz de impedir os ciclos da natureza.
Há um começo.
Há um desenvolvimento.
E há uma transformação.
Aceitar isso não significa deixar de sentir. Pelo contrário. Talvez a aceitação seja justamente permitir que o amor continue existindo sem exigir que a presença da pessoa.
Quando alguém que amamos parte, alguma coisa daquela pessoa continua conosco. Uma frase, um sorriso, um ensinamento, uma lembrança aparentemente insignificante. Às vezes basta sentir determinado perfume ou ouvir uma música para que alguém volte por alguns segundos.
É como a luz de uma estrela.
A estrela pode ter mudado, mas sua luz continua viajando.
Talvez sejamos assim também.
Aquilo que fazemos de bom pode continuar iluminando alguém muito depois de termos partido.
Por isso, com o passar dos anos, começo a compreender que possuir é uma ilusão. A casa, o dinheiro, os objetos, os títulos, tudo isso fica pelo caminho. O que realmente carregamos talvez seja aquilo que não pode ser colocado numa mala: o amor que oferecemos, a amizade que cultivamos, o conhecimento que compartilhamos e a serenidade que aprendemos a construir dentro de nós.
A vida parece nos ensinar lentamente a trocar o apego pela gratidão.
Em vez de dizer: “Eu queria que isso durasse para sempre”, talvez possamos dizer: “Sou grato porque isso aconteceu”.
E há uma grande diferença entre as duas frases.
A primeira luta contra o tempo.
A segunda faz as pazes com ele.
Talvez seja por isso que os ciclos sejam tão importantes. Eles nos lembram que nada permanece exatamente igual. A noite dá lugar ao dia. O inverno prepara a primavera. A semente desaparece para que a árvore exista. A estrela muda para que seus elementos possam participar de outras histórias.
E nós também mudamos.
Um dia percebemos que não somos mais a pessoa que fomos. E isso não precisa ser motivo de tristeza. Podemos simplesmente estar entrando em outra fase do nosso ciclo.
Talvez envelhecer seja, em parte, aprender a contemplar a própria existência com menos pressa.
Olhar para trás sem querer voltar.
Olhar para frente sem querer controlar.
E olhar para o presente com gratidão.
Porque, afinal, para tudo há um final.
Mas talvez nunca exista um fim absoluto.
Existem ciclos.
Existem transformações.
Existem despedidas.
E existem luzes que continuam viajando mesmo depois que já não conseguimos enxergar de onde vieram.
Talvez a vida seja exatamente isso:
uma pequena estrela aprendendo, por algum tempo, a iluminar o universo.


Sebastião Neiva
Sebastião Neiva
Enviado por Sebastião Neiva em 15/08/2026
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