Durante muito tempo, talvez tenhamos acreditado que a felicidade mora em algum lugar distante. Que ela chegará quando encontrarmos a pessoa certa, conquistarmos aquele objetivo, comprarmos aquela casa, alcançarmos aquele título ou finalmente realizarmos aquele sonho que carregamos há tantos anos.
Mas talvez a felicidade não seja uma coisa que alguém possa nos dar.
Você jamais encontrará uma pessoa que seja responsável por fazê-lo feliz. A felicidade, no fundo, é independente de terceiros. Sou feliz porque sou feliz. E pronto.
Schopenhauer dizia que a vida humana oscila como um pêndulo entre o desejo e o tédio. Queremos aquilo que ainda não temos. Lutamos, sonhamos, fazemos planos. E, quando finalmente conquistamos, descobrimos que a satisfação dura pouco e logo surge um novo desejo.
É como se estivéssemos sempre correndo atrás de alguma coisa que, quando alcançada, deixa de ter a mesma importância.
Lembro-me de uma cena de O Gambito da Rainha. Um jovem enxadrista, cheio de confiança, diz à protagonista que será campeão mundial. Ela então lhe pergunta:
— E daí?
Uma pergunta pequena, mas imensa.
E daí?
Talvez essa seja uma das perguntas mais difíceis da vida. Porque depois da conquista pode vir o silêncio. Depois da festa, o dia seguinte. Depois do aplauso, a solidão. Depois do troféu, a necessidade de descobrir por que queríamos tanto aquele troféu.
Talvez por isso a felicidade não esteja exatamente na chegada, mas no caminho.
Está em andar pela rua sem pressa e perceber uma pessoa bonita passando. Em admirar uma vitrine não com inveja daquilo que não podemos comprar, mas com admiração pela criatividade de quem imaginou aquilo. Está em observar uma criança brincando, ouvir uma música inesperada, conversar com um amigo, tomar um café olhando o movimento da cidade.
Está em aprender a olhar.
Porque talvez a felicidade seja, antes de tudo, uma maneira de enxergar o mundo.
Olhar com os olhos da beleza. Olhar com os olhos do amor.
As conquistas são importantes, evidentemente. Não há nada de errado em desejar, lutar e vencer. Pelo contrário. A dificuldade muitas vezes é justamente aquilo que dá sabor à conquista. Uma montanha vencida sem esforço não nos ensina tanto quanto aquela que nos fez parar, respirar fundo e pensar em desistir.
É a caminhada que nos transforma.
E há momentos em que a vida nos ensina isso de maneira dolorosa.
Perdi um amigo. E perder alguém que amamos deixa um vazio que nenhuma palavra consegue preencher. A saudade dói porque a presença foi importante. Mas, com o tempo, talvez possamos mudar a pergunta.
Em vez de perguntar apenas: "Por que ele se foi?", podemos também agradecer: "Que felicidade ter tido a oportunidade de conhecê-lo."
A dor continuará existindo. Mas ela não precisa apagar a gratidão.
Podemos sofrer por alguém e, ainda assim, ser felizes por tudo aquilo que vivemos juntos.
Talvez a verdadeira felicidade esteja justamente nessa capacidade de agradecer pelaquilo que a vida nos deu, mesmo quando ela nos tira alguma coisa.
E então chegamos ao amor.
Amar e servir aos outros sem fazer uma espécie de contabilidade com Deus. Fazer o bem sem perguntar o que receberemos em troca. Fazer as coisas como se estivéssemos fazendo para Jesus, simplesmente porque acreditamos que vale a pena.
Sem barganha.
Sem esperar aplausos.
Sem precisar que alguém reconheça.
Porque talvez exista uma felicidade muito maior em doar do que em acumular.
Títulos ficam para trás. Dinheiro fica. Casas ficam. Objetos ficam. Até o nosso nome, um dia, pode desaparecer da memória das pessoas.
Tudo aquilo que é da terra permanece na terra.
O que levamos conosco é outra coisa.
Levamos aquilo que fomos capazes de sentir. As amizades que construímos. O amor que oferecemos. O bem que fizemos sem ninguém saber. As pequenas alegrias que aprendemos a enxergar no caminho.
Talvez ser feliz seja isso: não esperar que a vida nos entregue a felicidade pronta, mas construí-la lentamente, todos os dias, com aquilo que temos.
Olhar para o mundo e ainda encontrar beleza.
Olhar para as pessoas e ainda encontrar motivos para amar.
Olhar para as dificuldades e perceber que elas também fazem parte da caminhada.
E, quando a vida nos perguntar o que conquistamos, talvez a melhor resposta não seja uma lista de bens, títulos ou troféus.
Talvez seja simplesmente:
Eu vivi.
Eu amei.
Eu servi.
Eu fui feliz.