Houve um tempo em que eu pensei que o abismo fosse o fim.
Não havia chão.
Não havia direção.
Apenas aquele vazio imenso diante de mim e a sensação de que tudo o que eu conhecia havia desaparecido.
Então veio a queda.
Não foi apenas o corpo que caiu.
Caíram certezas,
medos,
ilusões,
pessoas,
lugares dentro de mim
que eu acreditava que permaneceriam para sempre.
Por um instante,
eu não sabia mais quem era.
Foi quando uma corda azul desceu.
Não sei se veio de fora
ou se sempre esteve ali,
esperando que eu tivesse coragem para segurá-la.
Agarrei.
E comecei a descer.
Não havia uma escada.
Não havia um caminho pronto.
Havia apenas pequenas beiradas,
quase imperceptíveis,
onde minhas mãos encontravam apoio
e meus pés encontravam coragem.
Desci devagar.
Às vezes,
com medo de olhar para baixo.
Às vezes,
sem forças para continuar.
Mas continuei.
E foi na descida
que compreendi uma coisa que a queda nunca poderia me ensinar:
eu não precisava voltar a ser quem era.
Eu precisava me tornar
quem eu ainda não conhecia.
Cada pedaço de pedra que encontrei foi uma escolha.
Cada impulso para baixo
foi uma despedida.
Cada centímetro conquistado
foi uma pequena vitória sobre tudo aquilo
que um dia me fez acreditar
que eu não conseguiria.
Quando finalmente alcancei o fundo,
não houve aplausos.
Não houve celebração.
Houve apenas silêncio.
Um silêncio diferente daquele que existia no fundo do abismo.
Depois de sair do abismo,
respirei profundamente
e percebi que havia sobrevivido
não apenas ao abismo,
mas à pessoa que eu era
quando cheguei até ele.
Olhei para baixo
e já não senti vontade de voltar.
O abismo continuava lá.
Profundo.
Escuro.
Imenso.
Mas já não me pertencia.
Ele havia levado muito de mim, mas também havia revelado uma força que eu desconhecia.
Hoje sei que algumas quedas não acontecem para nos destruir.
Acontecem para interromper
o caminho que já não nos serve.
Às vezes,
é preciso perder o chão
para descobrir as próprias mãos.
É preciso conhecer o vazio
para compreender o valor da presença.
É preciso chegar ao limite
para descobrir que ainda existe
um pouco de força escondida
debaixo do medo.
Eu não venci porque não caí.
Venci porque, depois da queda, segurei a corda.
Venci porque procurei as beiradas quando não havia caminho.
Venci porque, mesmo sem saber como seria o amanhã, escolhi descer.
E quando atravessei aquela borda,
entendi finalmente:
eu não estava saindo do abismo.
Eu estava nascendo
depois dele.