Você, meu pássaro ferido,
meu pássaro preferido.
Quando caiu no meu jardim,
por um instante pensei
que o próprio paraíso tivesse escolhido
aquele lugar para pousar.
Você chegou trazendo nos olhos a delicadeza de quem já havia sofrido, e nas asas, marcas de voos difíceis.
Eu cuidei de cada ferimento
como quem cuida de algo sagrado.Com zelo, com paciência, com as mãos e o coração.
Usei os remédios que conhecia, mas foi o meu amor que quis ser o seu abrigo.
E, sem perceber, fui fazendo de você o meu bem maior.
Porque quem ama, cuida.
E eu cuidei.
Cuidei dos seus silêncios,
das suas inseguranças,
dos seus dias de tempestade.
Cuidei dos pequenos momentos como quem recolhe estrelas para iluminar uma noite.
Transformei nossos encontros em pequenos segundos de paz,
em instantes que eu gostaria de guardar para sempre.
Às vezes, confesso,
tive vontade de esconder você dentro de um porta-joias, não para machucá-lo,
mas para ter a certeza
de que jamais o perderia.
Até que compreendi.
Você era um pássaro.
E pássaros não nasceram
para viver dentro de mãos fechadas.
Nasceram para o céu,
para o vento,
para a imensidão.
Então chegou o dia
em que minhas mãos tremeram.
Eu poderia ter apertado os dedos. Poderia ter tentado fazê-lo ficar.
Poderia ter confundido amor
com posse.
Mas amar você
também significava permitir
que você fosse livre.
E eu abri as mãos.
Devagar.
Como quem entrega ao céu
a coisa mais preciosa que possui.
Você partiu.
E quando suas asas desapareceram no horizonte, ficou um silêncio enorme no meu jardim.
Ficou um vazio dentro de mim, um espaço que nenhum outro pássaro
conseguiu ocupar.
Mas não me arrependo.
Porque eu fiz o que pude por você.
E talvez essa seja a forma mais bonita de amar alguém: cuidar enquanto precisa de nós, acolher enquanto permanece,
e saber abrir as mãos
quando chega a hora de partir.
Sempre fui assim.
Um cuidador de pássaros.
Eles chegam ao meu jardim
feridos, cansados, assustados.
Eu os acolho.
Cuido de suas asas,
ofereço abrigo, dou carinho,
e, quando estão prontos,
deixo que voltem para o céu.
Alguns permanecem por pouco tempo.
Outros deixam raízes profundas.
Você deixou uma primavera inteira dentro de mim.
Hoje compreendo que soltar pode ser mais amoroso
do que possuir.
Que ninguém pertence a ninguém.
Que o amor verdadeiro
não constrói gaiolas.
Ele constrói asas.
E se um dia você olhar para o céu
e sentir uma saudade inexplicável,
talvez seja o meu amor
passando suavemente pelo vento.
Não para trazê-lo de volta.
Apenas para lembrá-lo
de que, em algum jardim,
houve alguém que o amou tanto que preferiu vê-lo voar
a vê-lo permanecer sem liberdade.