QUERO MORRER LENTAMENTE
Sei que a morte é uma coisa muito natural.
Todos morremos. Eu também vou morrer.
Não sei quando. Não sei como. E, talvez pela primeira vez, percebo que isso já não me assusta tanto. O que me assusta é outra coisa: passar pela vida sem ter realmente vivido.
Por isso, quero morrer lentamente.
Quero morrer como quem recebe nas mãos um pote de doce de leite.
No começo, talvez eu mergulhe a colher sem cerimônia. Colheradas grandes, generosas, quase gulosas. Depois, quando o doce começar a rarear, usarei uma colher menor. E, quando restar apenas aquela camada fina grudada no fundo e nas paredes do pote, não terei pressa. Vou procurar um palito de fósforo, depois um palito de dentes, e, com a paciência de quem sabe que não haverá outro pote, vou raspar cada pedacinho.
Não quero desperdiçar nada.
Quero sentir o sabor de cada porção.
Quero que, quando a morte finalmente chegar, ela me encontre vivo.
Muito vivo.
Há algum tempo li uma frase atribuída a Confúcio:
“Temos duas vidas. A segunda começa quando descobrimos que só temos uma.”
Talvez eu esteja justamente começando a minha segunda vida.
E é a ela que quero me dedicar daqui para frente.
Quero aprender a saborear o tempo.
Quero transformar momentos aparentemente comuns em momentos únicos. Sentar-me à mesa com os amigos e perceber que aquele encontro talvez seja irrepetível. Abraçar a família demoradamente, como se aquele abraço pudesse guardar o tempo dentro dele. Ouvir uma história que já ouvi tantas vezes e, ainda assim, prestar atenção como se fosse a primeira.
Quero olhar mais.
Escutar mais.
Rir mais.
Agradecer mais.
Quero parar de tratar os dias como se fossem infinitos.
Porque não são.
Hoje percebo que vivo, talvez, o melhor momento da minha vida.
E isso não tem nada a ver com possuir mais.
Ao contrário.
Não preciso mais juntar tantas coisas. Não preciso guardar tanto. O que tenho de melhor não foi feito para ficar armazenado.
Foi feito para ser espalhado.
Quero esparramar.
Transbordar.
Quero repartir aquilo que a vida me ensinou, os afetos que recebi, as experiências que acumulei, os erros que cometi e, principalmente, aquilo que ainda estou aprendendo a ser.
Quero fazer nascer sorrisos nos lábios das pessoas.
Quero deixar alguma coisa boa por onde passar.
Não necessariamente uma grande obra, um nome gravado em pedra ou alguma lembrança extraordinária.
Às vezes, basta ter sido gentil.
Ter segurado a mão de alguém.
Ter ouvido sem interromper.
Ter oferecido uma palavra quando o silêncio do outro pedia companhia.
Talvez uma vida inteira possa ser medida por essas pequenas coisas.
E quero aprender mais.
Sempre mais.
Porque descobri que não existe idade para continuar se transformando.
Na verdade, quero me transformar para poder transformar, ainda que um pouco, aqueles que caminham perto de mim.
Não tenho mais a pretensão de agradar a todos.
Isso seria uma forma de desperdício.
Quero, sim, ser autêntico.
Leal.
Honesto.
E, acima de tudo, quero conservar um coração bom.
Não um coração perfeito — porque já descobri que perfeição é uma coisa que não existe em nós —, mas um coração que reconhece seus erros, pede perdão quando necessário e continua tentando ser melhor.
Gosto muito de uma frase atribuída a Chico Xavier:
“Não posso fazer um recomeço, mas posso melhorar o final.”
É exatamente isso que meu coração tem me pedido.
Não posso voltar atrás e refazer os capítulos que já escrevi.
Algumas páginas ficaram bonitas.
Outras, nem tanto.
Há frases que eu gostaria de apagar. Há decisões que hoje tomaria de outra maneira. Há pessoas que eu deveria ter abraçado mais. Há palavras que deveria ter dito e outras que deveria ter calado.
Mas o livro ainda não terminou.
E talvez seja essa a grande beleza da vida.
Enquanto houver uma página em branco, ainda podemos escrever diferente.
Por isso, não quero viver pensando na morte.
Quero viver de um modo que faça a morte perder a urgência.
Quando ela vier, que me encontre no meio de alguma coisa.
Talvez rindo.
Talvez abraçando alguém.
Talvez aprendendo.
Talvez repartindo o pouco ou o muito que ainda tiver.
Que ela me encontre com o coração cheio, e não com as mãos fechadas.
Quero chegar ao fim como quem chega ao fundo de um pote de doce de leite: sabendo que saboreou tudo o que podia.
E, quando restar apenas aquele último pedacinho grudado no fundo, quero raspá-lo devagar.
Sem pressa.
Com gratidão.
Porque a vida, afinal, não se mede apenas pelos anos que temos.
Mede-se pelo quanto conseguimos estar presentes enquanto os anos passam.
Quero, então, viver assim.
Amando.
Aprendendo.
Perdoando.
Rindo.
Espalhando.
Transbordando.
E, sobretudo, agradecendo.
Sou e continuarei sendo um apaixonado pelo meu Criador e por todos os espíritos que, de alguma maneira, têm me dado forças para esta caminhada.
Não sei quanto tempo ainda tenho.
Mas isso já não é o mais importante.
O que importa é o que farei com o tempo que me resta.
E, se puder escolher, quero gastar cada minuto como quem segura nas mãos um pote de doce de leite quase vazio.
Sem pressa.
Sem desperdício.
Com os olhos brilhando.
E com a certeza de que, enquanto houver um último sabor para experimentar,
ainda há vida para viver.
Sebastião Neiva
Sebastião Neiva
Enviado por Sebastião Neiva em 09/08/2026