Escrevo quando me encho de vazios.
Não daqueles vazios que se medem pela ausência de móveis numa casa ou de gente numa sala. Falo do vazio que se instala por dentro e que, de tão pesado, parece ocupar todos os espaços. É curioso: às vezes o mundo está cheio de pessoas, de compromissos, de ruídos, e mesmo assim há um silêncio que ecoa dentro de nós. Outras vezes, o silêncio vem de fora e acaba encontrando morada no peito. Há dias em que não sei distinguir onde termina um e começa o outro.
Talvez seja por isso que escrevemos.
Escrevemos pela dor. Pelo amor que não voltou. Pelas ausências que insistem em sentar-se à mesa conosco. Pela solidão que aprende nossos horários e já nem bate mais à porta. A escrita é uma tentativa de organizar o caos, ou, quem sabe, apenas de lhe dar um nome menos assustador.
Tenho uma desconfiança antiga: pessoas completamente felizes não escrevem. Vivem. Riem. Dormem tranquilas. Quem escreve parece carregar uma pedra invisível no bolso da alma. Não escreve porque sabe; escreve porque procura. Cada frase é uma lanterna acesa num quarto escuro.
O romantismo, então, talvez seja uma enfermidade consentida. Uma espécie de febre que faz adultos acreditarem em milagres improváveis. Trocamos duendes por promessas, fadas por encontros perfeitos, gnomos por almas gêmeas. Mudam os personagens, permanece a fantasia.
Amar, no fundo, é um ato de pouca sanidade. É investir nos sonhos mais improváveis, acreditar que outro ser humano poderá preencher um espaço que nem nós mesmos compreendemos. E, quando o impossível acontece e o amor é correspondido, nasce outra estranha contradição: desejamos intensamente aquilo que ainda não temos e, depois de possuí-lo, descobrimos que a rotina também sabe fabricar o tédio.
Talvez eu conheça apenas esse amor, feito de desejo e desencontro, de esperança e desencanto. Talvez exista outro, mais sereno, que ainda não tive o privilégio de encontrar. Não sei.
O que sei é que, enquanto houver vazios, haverá palavras. Enquanto o mundo insistir em virar do avesso, alguém pegará uma folha em branco para tentar endireitá-lo. Nem que seja por alguns instantes.
E talvez seja essa a verdadeira função da escrita: não curar as feridas, mas impedir que elas morram sem deixar um testemunho.