Sonhava com um tempo de pausa.
Imaginava que o silêncio me devolveria a paz,
que o descanso teria o gosto da liberdade.
Mas quando a pausa chegou, assustei.
Ela não trouxe paz.
Trouxe ausência.
Trouxe o eco dos dias sem urgência,
o relógio caminhando sem precisar de mim.
Percebi que nem todo descanso repousa;
há pausas que pesam.
Na falta do que fazer,
faltou-me também quem eu era.
Senti meu valor escapar pelos dedos,
como se a utilidade fosse a última prova da existência.
Então compreendi:
a vida é um pêndulo incansável.
Quando luta, deseja o descanso.
Quando descansa, deseja um motivo para lutar.
Sempre falta alguma coisa.
Sempre há um vazio esperando do outro lado.
A pausa me ensinou
que o silêncio também pode ferir,
e que a inutilidade é uma das formas mais discretas da dor.
Hoje já não sonho com a pausa.
Sonho com um motivo.
Porque talvez viver seja isso:
seguir entre o peso da necessidade
e o vazio da sua ausência,
balançando, como um velho pêndulo
que nunca encontra o centro.