Após assistir o seriado o gambito da rainha por três vezes, resolvi escrever essa crônica.
Há uma jogada famosa no xadrez chamada Gambito da Rainha. Nela, o jogador abre mão de uma peça menor para conquistar uma posição melhor no tabuleiro. Quem olha apenas o primeiro lance pode pensar que houve um erro. Mas, no xadrez, nem sempre perder uma peça significa perder o jogo.
Tenho a impressão de que a política brasileira, muitas vezes, se parece com essa partida.
A cada eleição, mudam os nomes, os discursos e as promessas. Alguns sobem, outros caem. Uns deixam o palco sob aplausos; outros, sob vaias. O eleitor acredita que uma grande mudança está acontecendo. E, de fato, algumas mudanças acontecem. Mas outras parecem apenas trocar as peças de lugar.
Foi então que me ocorreu uma metáfora.
E se a rainha não fosse um presidente, um partido ou um líder político? E se a rainha fosse o próprio sistema?
Não um sistema secreto, nem uma conspiração. Apenas esse conjunto de instituições, interesses, regras, disputas e relações de poder que continua existindo, independentemente de quem vence a eleição.
Nesse tabuleiro, as peças se movimentam sem parar. Alianças surgem e desaparecem. Adversários tornam-se aliados. Aliados viram adversários. O que ontem parecia impossível, hoje é tratado como algo natural.
Enquanto isso, nós, os cidadãos, acompanhamos a partida com a esperança de que o próximo lance seja diferente.
Talvez seja. Talvez não.
O curioso é que, depois de algum tempo, percebemos que muitos jogadores deixaram o tabuleiro, mas a partida continua exatamente onde estava. Como se o objetivo maior não fosse vencer uma eleição, mas garantir que o jogo nunca termine.
Não escrevo isso com pessimismo. Escrevo como quem observa uma partida longa e aprende que, no xadrez, o olhar apressado enxerga apenas as peças. O olhar paciente tenta compreender a estratégia.
Talvez essa seja a lição do Gambito da Rainha.
Antes de escolher um lado do tabuleiro, convém entender qual é o jogo que está sendo jogado.
Porque, às vezes, a peça que julgávamos mais poderosa não passa de um jogador de passagem. A verdadeira rainha continua ali, atravessando governos, sobrevivendo às crises e se adaptando a cada nova partida.
E nós, do lado de fora do tabuleiro, seguimos torcendo para que, um dia, o jogo seja menos sobre preservar o poder e mais sobre servir ao povo. Afinal, em uma democracia, a partida só faz sentido quando quem montou o tabuleiro também pode mudar as regras do jogo pelo voto e pela participação cidadã.