O ESPIRITISMO ESTÁ MORRENDO?
Outro dia ouvi alguém afirmar, com convicção, que o Espiritismo está morrendo.
Pensei por alguns instantes e concluí: não, o Espiritismo não está morrendo. O que talvez esteja envelhecendo é parte do movimento espírita.
A doutrina codificada por Allan Kardec continua viva. Está nos livros, nas redes sociais, nos filmes, nos debates filosóficos e científicos. Está presente na mente de milhares de pessoas que buscam compreender a vida, a morte e o sentido da existência.
As ideias espíritas continuam despertando interesse porque falam de algo universal: a evolução do ser.
O problema talvez não esteja na doutrina, mas em algumas estruturas criadas em seu entorno.
Kardec definiu o Espiritismo como uma doutrina de caráter científico, filosófico e moral. Mais do que isso, afirmou que ela deveria acompanhar o progresso do conhecimento humano. Se a ciência apresentasse novos fatos, caberia ao Espiritismo estudá-los e incorporá-los quando fossem verdadeiros.
Entretanto, em muitos lugares, parece que a renovação deu lugar à repetição.
Os jovens chegam, observam e, muitas vezes, não permanecem. Encontram ambientes excessivamente burocráticos, normas sem explicação clara, processos demorados e uma resistência quase automática a qualquer proposta de mudança.
Há casas onde o acesso ao trabalho mediúnico exige anos e anos de preparação. Existem regras que variam de uma instituição para outra, como se fossem princípios doutrinários. Em alguns casos, a autoridade da experiência parece ter substituído a autoridade da razão.
Naturalmente, disciplina é necessária. Organização também. Mas quando os meios se tornam mais importantes que os objetivos, alguma coisa merece ser revista.
Lembro-me de uma cena que presenciei e que me fez refletir profundamente.
Uma mãe chegava ao centro espírita levando o filho para um tratamento espiritual. A criança, ainda dentro do carro, passou mal e teve uma forte crise de vômitos. Entre limpar o filho, acalmá-lo e reorganizar tudo, a mãe acabou se atrasando alguns minutos.
Quando finalmente entrou na instituição, aflita e preocupada, foi informada de que não poderia mais participar do atendimento porque o horário havia sido encerrado.
Voltou para casa sem a assistência que procurava.
Naquele momento, fiquei pensando: o que deveria falar mais alto? O regulamento ou a compaixão?
Também conheci o caso de uma trabalhadora dedicada, frequentadora assídua da casa espírita durante muitos anos. Certo período, precisou se afastar para acompanhar o marido gravemente enfermo em internações e tratamentos.
Fez o que qualquer pessoa amorosa faria.
Quando retornou, descobriu que havia sido desligada do grupo mediúnico por causa das ausências.
Mais uma vez surgiu a mesma pergunta: estamos formando servidores ou administrando frequência?
Esses exemplos não são exceções isoladas. Muitos espíritas já presenciaram situações semelhantes.
Talvez não exista má intenção. Talvez exista apenas o apego excessivo às normas. Mas quando uma regra impede a manifestação da caridade, não seria razoável reavaliar a própria regra?
Afinal, o Evangelho nos apresenta Jesus interrompendo caminhos, modificando planos e acolhendo pessoas justamente quando elas mais precisavam. O amor nunca foi burocrático.
Também chama atenção a distância entre teoria e prática.
Muitos falam sobre espiritualidade durante algumas horas por semana, mas fora das reuniões vivem como se o mundo espiritual não existisse. O conhecimento que deveria transformar a consciência acaba, por vezes, restrito às paredes do centro espírita.
Enquanto isso, a sociedade muda numa velocidade impressionante.
O mundo de Kardec conhecia o telégrafo. Nós vivemos a era da inteligência artificial, da internet e da comunicação instantânea. Se o planeta mudou tanto, não seria razoável perguntar se nossas formas de ensinar, acolher e divulgar também precisam evoluir?
Não se trata de abandonar princípios.
A reencarnação continua sendo uma explicação lógica para as desigualdades humanas. A mediunidade continua sendo um fenômeno digno de estudo. A influência dos espíritos sobre nossas vidas continua sendo uma realidade para milhões de pessoas.
Os fundamentos permanecem sólidos.
Mas talvez seja hora de separar com mais clareza o que é doutrina e o que é costume; o que é ensinamento e o que é tradição; o que veio de Kardec e o que foi acrescentado ao longo do tempo por interpretações humanas.
A caridade continua sendo o coração do Espiritismo. Porém, caridade não se resume à assistência material. A verdadeira transformação acontece na consciência. É relativamente fácil abandonar alguns defeitos grosseiros. Difícil mesmo é vencer o orgulho, a vaidade, a intolerância e a pretensão de acreditar que somos donos da verdade.
Talvez o maior desafio do movimento espírita seja justamente esse: recordar que ninguém é proprietário da doutrina.
O Espiritismo não pertence às instituições. Não pertence aos dirigentes. Não pertence aos médiuns.
Pertence às ideias.
E ideias verdadeiras não morrem.
Por isso, não acredito no fim do Espiritismo. Acredito, sim, na necessidade de renovação. Toda árvore que deseja continuar viva precisa podar galhos envelhecidos para permitir o surgimento de novos brotos.
A espiritualidade continua oferecendo luz. A questão é saber se teremos humildade suficiente para abrir as janelas e deixar essa luz entrar.
Porque a história ensina uma lição simples: não são as verdades que envelhecem. São as estruturas que se recusam a evoluir.
Sebastião Neiva
Opinião exclusiva do autor.
Sebastião Neiva
Enviado por Sebastião Neiva em 23/06/2026