Sebastiao
E a vida continua
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Textos
GAME OVER
Lutei muito com tudo, mas o diabetes sempre vence. São 35 anos em que a doçura e o amargo me acompanham. O doce no paladar e o amargo nos órgãos vitais. Essa doença metabólica vai corroendo por dentro, lentamente. Só após décadas começam a aparecer alguns sintomas. Chega a um ponto em que ela dita as regras: dores, limitações, amputações, perda da visão e a doença renal crônica. Paliativo da hemodiálise e, por fim, game over.
Mas não sou vítima, sou o vilão da história. A boca fala mais alto do que a lucidez, e nos entregamos ao sabor das guloseimas.
Mas não há arrependimento. Há, sim, o medo do sofrimento, porque o medo da morte jamais me visitou.
A morte sempre me pareceu apenas uma mudança de estação, uma travessia inevitável para todos os viajantes da existência. O que inquieta não é o ponto final, mas as reticências que o antecedem. Não é partir que assusta, mas o caminho doloroso que pode conduzir à partida.
Ainda assim, enquanto houver um amanhecer, há uma página em branco. Enquanto o coração insistir em seu compasso silencioso, há tempo para escolhas, para afeto, para reconciliações e para gratidão.
Talvez o jogo esteja se aproximando do fim. Talvez não. Ninguém sabe. Mas uma coisa aprendi nesses anos todos: a vida não se mede pelo placar, e sim pela coragem de permanecer em campo quando as forças diminuem.
E, quando a última partida terminar, quero apenas poder dizer que vivi. Com erros, excessos, cicatrizes e aprendizados. Vivi intensamente a doçura e o amargo que me foram oferecidos. E isso, para mim, já terá valido a jornada.


Sebastião Neiva
Sebastião Neiva
Enviado por Sebastião Neiva em 21/06/2026
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