A frase original é essa:
“Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas.”
Machado de Assis colocou essas palavras na boca de Quincas Borba, não para exaltar vencedores, mas para desnudar a lógica implacável das disputas humanas. Em sua alegoria, duas tribos lutam por um campo de batatas: uma sobrevive; a outra sucumbe. O prêmio dos vencedores? As batatas. Aos vencidos, resta o ressentimento ou a piedade.
Mais de um século depois, a frase continua ecoando. Mudaram os cenários, as bandeiras e os discursos, mas as tribos permanecem. Cada lado se julga portador da verdade e reserva ao adversário não a escuta, mas o desprezo.
Talvez Machado continue atual porque compreendeu algo permanente da natureza humana: enquanto houver tribos disputando poder, recursos e narrativas, haverá vencedores e vencidos. Mas uma sociedade verdadeiramente justa não pode se contentar com a lógica de que “ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas”. Afinal, quando a ética é derrotada, não há vencedores e as batatas nunca são suficientes.
Machado de Assis tinha o raro talento de enxergar o futuro sem sair do seu tempo. Em Quincas Borba, por meio da filosofia fictícia do Humanitismo, ele nos oferece uma das frases mais provocativas da literatura brasileira: “Ao vencedor, as batatas”.
Parece simples. Mas Machado nunca celebrou essa lógica, ele a ironizou. Sua caneta refinada expunha o absurdo de um mundo em que a força e o interesse se disfarçam de virtude.
Mais de um século depois, continuamos divididos em tribos. Mudam-se os nomes, as bandeiras e os discursos; permanecendo o espírito da disputa. Cada grupo acredita possuir a verdade e reserva ao adversário o erro, quando não o desprezo.
Enquanto isso, os cidadãos comuns seguem enfrentando velhos desafios: impostos, inflação, insegurança, trabalho incessante e a sensação de que o esforço individual nem sempre é recompensado. Em outra margem, cresce a dependência de estruturas que prometem proteção e assistencialismo, mas que por vezes enfraquecem a autonomia e a responsabilidade.
A maior tragédia talvez não seja a existência das tribos, mas a perda do diálogo. Quando pensar torna-se um ato raro, a cultura empobrece. Quando a discordância vira inimizade, a democracia adoece. E quando a política substitui a ética, todos acabam derrotados, até mesmo os vencedores.
Talvez Machado continue atual justamente porque compreendeu algo permanente da condição humana: o poder muda de mãos, mas as paixões permanecem as mesmas.
Quem sabe o caminho adiante não esteja nem na vitória de uma tribo sobre a outra, mas na construção de uma sociedade guiada pela prudência, pela justiça e pela virtude. Algo que talvez lembrasse a ideia aristotélica do justo meio: não o caminho da esquerda ou da direita, mas o caminho da ética.
Porque, no fim das contas, quando as batatas acabam, resta apenas a pergunta: o que fizemos de nossa humanidade?