Outro dia me peguei observando o movimento das pessoas nas ruas. Cada uma carregava suas preocupações, seus planos, suas ansiedades e suas expectativas. Então me veio um pensamento aparentemente simples: viver é muito simples; nós é que complicamos.
A natureza parece compreender isso melhor do que nós. O sol nasce sem fazer alarde. As árvores crescem sem competir umas com as outras. Os rios seguem seu curso sem reclamar dos obstáculos que encontram. Existe uma sabedoria silenciosa na simplicidade da vida.
O ser humano, porém, possui uma habilidade notável para criar dificuldades onde elas não existem. Desejamos mais do que precisamos. Comparamos nossa vida com a dos outros. Alimentamos disputas por bens, posições e reconhecimentos que, cedo ou tarde, serão esquecidos pelo tempo.
O desejo descontrolado nos inquieta. O egoísmo nos isola. A maldade envenena quem a pratica antes mesmo de atingir quem a recebe. Os pensamentos fúteis ocupam o espaço que poderia ser preenchido pela reflexão e pelo autoconhecimento.
Também nos tornamos prisioneiros do que é perecível. Disputamos objetos, patrimônios e aparências como se fossem tesouros eternos, esquecendo-nos de que tudo aquilo que pertence à matéria está destinado à transformação.
O egocentrismo nos impede de enxergar o outro. A imprudência nos conduz a sofrimentos evitáveis. A falta de caráter corrói a confiança. A mentira exige novas mentiras para sobreviver. Os exageros roubam nossa capacidade de equilíbrio.
Nem mesmo a religião escapa desse problema quando se transforma em fanatismo. A fé deveria ampliar a compreensão humana, mas o fanatismo a reduz. Em vez de aproximar as pessoas, cria muros. Em vez de iluminar, obscurece.
A falta de cultura também contribui para nossa infelicidade. Não apenas a cultura dos livros, mas a cultura da convivência, do pensamento crítico, da arte, da filosofia e da busca sincera pelo conhecimento. Quanto menor o conhecimento , mais estreita se torna a visão da vida, mais manipulável.
Talvez por isso a filosofia estoica continue atual após tantos séculos. Seus ensinamentos apontam para uma verdade simples: não controlamos os acontecimentos, mas podemos controlar nossa maneira de reagir a eles. Não governamos o mundo, mas podemos governar a nós mesmos.
Os estoicos compreenderam que a felicidade não está em possuir mais, vencer mais ou aparentar mais. Ela nasce quando aprendemos a distinguir o essencial do acessório, quando abandonamos as correntes que criamos com nossos próprios defeitos.
A vida continua apresentando desafios, perdas e dificuldades. Isso jamais mudará. O que pode mudar é a forma como caminhamos por ela.
Talvez a felicidade não seja uma conquista extraordinária. Talvez seja apenas o retorno à simplicidade que sempre esteve diante de nós, esperando que deixemos de complicar aquilo que a própria vida já resolve de forma tão simples.
Você já havia pensado nisso?