Sebastiao
E a vida continua
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SE DEUS NÃO EXISTISSE?
Ao escrever essa crônica busquei dar a ela um tom conciliatório. Jamais foi a intenção de atacar ou defender uma posição específica. Ao contrário,  quis mostrar que a grande questão não é a existência ou não de Deus,  mas a responsabilidade humana diante da liberdade, do sentido da vida e da esperança.
Por isso começo com essa pergunta:
E se Deus não Existisse?

Às vezes imagino como seria o mundo se Deus não existisse.
Não me refiro apenas à ausência de igrejas, templos ou orações. Penso em algo mais profundo: e se não houvesse nenhum olhar eterno acompanhando nossos passos? Nenhuma justiça além da humana. Nenhuma esperança de reencontro depois da morte. Nenhuma voz silenciosa a ditar  sentido aos acontecimentos.
Para alguns, talvez pouco mudasse. O sol continuaria nascendo, as crianças continuariam brincando nas praças, os apaixonados ainda escreveriam cartas e os idosos seguiriam repetindo suas histórias. A vida, aparentemente, continuaria seu curso.

Mas dentro de cada pessoa algo se transformaria.

Nietzsche imaginou esse momento ao anunciar que "Deus está morto". Não era uma comemoração. Era um alerta. Se os antigos valores perdessem seu fundamento, quem assumiria a responsabilidade de criar novos? A liberdade poderia ser grandiosa, mas também assustadora.

Sartre foi ainda mais longe. Se Deus não existe, dizia ele, somos inteiramente responsáveis por aquilo que fazemos. Não haveria destino traçado nem desculpas definitivas. Cada escolha seria nossa. Cada erro também. A liberdade deixaria de ser um privilégio para tornar-se um peso inevitável.

Camus contemplou o mesmo cenário e enxergou o absurdo. O universo seria indiferente às nossas alegrias e sofrimentos. Ainda assim, ele não pregava o desespero. Pelo contrário. Defendia que, mesmo sem respostas finais, o ser humano pode criar significado através da coragem de viver, amar e lutar.

Então surge Kierkegaard, quase como uma voz solitária na multidão. Para ele, a existência humana possui uma sede tão profunda de infinito que nenhuma realização terrena consegue saciá-la. O vazio, a angústia e a inquietação seriam sinais de algo maior. A fé não seria uma fuga da razão, mas um salto em direção ao mistério.

Seria o mundo um caos sem Deus?

Talvez não imediatamente. As leis continuariam existindo. A moral permaneceria escrita nos códigos. As pessoas ainda seriam capazes de gestos de bondade.
Mas a pergunta verdadeira talvez seja outra: de onde viria a força para continuar acreditando no bem quando ninguém estivesse olhando? De onde nasceria a esperança diante das perdas inevitáveis? E qual seria o fundamento último da dignidade humana?
Como ficariam as barganhas?
Talvez os ateus respondam que a própria humanidade basta. Talvez os crentes afirmem que a humanidade só encontra sua plenitude quando se reconhece filha do divino.

Não sei quem possui a resposta definitiva.
O que percebo é que, com Deus ou sem Deus, cada pessoa continua diante do mesmo desafio: escolher quem será. A diferença é que, para uns, essa responsabilidade termina no horizonte da vida. Para outros, ela ecoa na eternidade.
E enquanto a filosofia debate, o coração humano continua procurando sentido,  talvez porque, no fundo, viver seja exatamente isso: caminhar entre a dúvida e a esperança.

Sebastião Neiva
Sebastião Neiva
Enviado por Sebastião Neiva em 05/06/2026
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