Sebastiao
E a vida continua
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PERSONAL TRAINER DA ALMA
A filosofia me trouxe mais dúvidas do que respostas. Curiosamente, isso foi uma das melhores coisas que me aconteceram. Quando eu era mais jovem, acreditava que a sabedoria consistia em acumular certezas.
Hoje, aos 68 anos, começo a suspeitar que ela mora justamente nas perguntas.
Foi a filosofia que me transformou em um personal trainer da minha própria alma.
Enquanto muita gente frequenta academias para fortalecer os músculos, eu tenho tentado fortalecer algo muito mais difícil: meu caráter. E, diferentemente dos exercícios físicos, que costumam mostrar resultados em algumas semanas, os exercícios da alma exigem uma vida inteira de treinamento.

Ainda encontro dentro de mim hábitos que gostaria de mudar. Descobri que é muito mais fácil tentar corrigir os outros do que corrigir a si mesmo. Apontar os defeitos alheios exige apenas palavras; enfrentar os próprios defeitos exige coragem.
Uma das minhas batalhas diárias é aprender a não julgar e a não discutir. Principalmente quando tenho certeza de que estou certo.
Durante muito tempo pensei que vencer uma discussão era uma demonstração de inteligência. Hoje percebo que, muitas vezes, a verdadeira vitória está em preservar a paz. Nem toda verdade precisa ser transformada em debate. Nem toda opinião contrária merece uma resposta.
Existe um ditado popular que diz: "Não discuta com um idiota; quem está assistindo pode não saber quem é quem." Embora a frase tenha seu humor, ela esconde uma sabedoria profunda. Muitas discussões não produzem luz; apenas geram calor.
Aprendi que deixar o outro vencer uma discussão, em certas circunstâncias, pode ser um gesto de grandeza espiritual. Se mais tarde a pessoa perceber que estava errada, compreenderá que você escolheu a serenidade em vez do orgulho. E, se por acaso ela estiver certa, o silêncio terá lhe poupado do constrangimento e lhe dado a oportunidade de aprender.
Quanto ao julgamento, a vida também tem me ensinado algumas lições. Julgar alguém é uma tarefa perigosa. Conhecemos apenas alguns capítulos da história das pessoas, mas quase nunca o livro inteiro. Não sabemos das dores que carregam, das lutas silenciosas que enfrentam ou das cicatrizes que escondem atrás de um sorriso.
Por isso, cada vez mais, procuro substituir o julgamento pela compreensão e a crítica pela reflexão.
Não é fácil. Às vezes o juiz que vive dentro de nós fala mais alto do que a consciência. Mas é justamente nesse momento que o treinamento começa.
Gosto de um ditado simples que diz: "Deus deu a vida, e cada um deve cuidar da sua." Quanto mais envelheço, mais sentido encontro nessas palavras. Há trabalho suficiente dentro de nós para ocupar uma existência inteira.
Talvez a paz interior não seja um lugar onde se chega, mas um caminho que se percorre. Um caminho feito de silêncio quando a discussão é inútil, de humildade quando o orgulho quer falar mais alto e de compreensão quando a tentação é julgar.
Aos 68 anos, continuo treinando. Não os músculos, mas a alma. E suspeito que este seja o treinamento mais difícil, mais longo e mais importante de todos.

Sebastião Neiva
Sebastião Neiva
Enviado por Sebastião Neiva em 04/06/2026
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