Ao observar o momento político, econômico e moral que atravessamos, não consigo evitar uma comparação inquietante: o Brasil parece estar internado em uma Unidade de Terapia Intensiva.
Uma UTI não é um lugar para improvisos. Ali, cada decisão exige rigor, método, competência e, acima de tudo, vontade de sobreviver. O paciente precisa colaborar, reagir aos medicamentos e encontrar forças para voltar ao quarto comum. Mas o nosso paciente parece ignorar o próprio manual de sobrevivência.
Ele gasta mais energia do que consegue produzir. Alguns órgãos sugam recursos dos demais, enquanto ductos invisíveis desviam o sangue que deveria irrigar todo o corpo. Há partes inchadas e outras enfraquecidas. O organismo perdeu o equilíbrio.
O diagnóstico mais preocupante, porém, não aparece nos exames de rotina. Existe um câncer instalado na consciência nacional. Um tumor silencioso que cresce alimentado pela corrupção, pela indiferença e pela incapacidade de distinguir o interesse coletivo das conveniências particulares. E, como todo câncer, se não for tratado a tempo, infiltra-se por todo o organismo.
O Brasil precisa de médicos sérios, inteligentes e competentes. Profissionais capazes de colocar a saúde do paciente acima das disputas por prestígio, poder ou vaidade. Precisa de gente que conheça a medicina da responsabilidade e tenha coragem para aplicar remédios amargos quando forem necessários.
Enquanto isso, o paciente enfraquecido vê sua vida cada vez mais dependente de decisões tomadas por terceiros. Quando alguém está gravemente doente, já não consegue trabalhar, lutar ou defender-se sozinho. Torna-se vulnerável.
Talvez ainda haja tempo. Quem sabe parcerias com médicos de outras experiências e outras realidades possam trazer novas alternativas para o tratamento. Afinal, quando a vida está em risco, toda ajuda legítima merece ser considerada.
Do lado de fora da UTI, milhões de brasileiros observam através do vidro. Alguns torcem, outros discutem sobre o tratamento, outros apenas aguardam notícias. Mas todos possuem uma responsabilidade: refletir cuidadosamente sobre quem entrega o bisturi e o receituário.
Porque a UTI é um lugar de decisões definitivas. Ali, o paciente melhora e retorna à vida comum ou segue um caminho sem volta.
Eu continuo acreditando na recuperação do Brasil. Mas a esperança, sozinha, não cura ninguém. Ela precisa caminhar ao lado da consciência, da responsabilidade e da escolha acertada daqueles que terão a missão de cuidar do paciente.
E o nome desse paciente somos todos nós.