Sonho como todo mundo sonha: cenas absurdas, pessoas desconhecidas, lugares improváveis. Sonhos que amanhecem confusos e evaporam no café da manhã ou num coçar de cabeça. Mas dessa vez foi diferente.
Eu estava em uma moto pequena puxando um trailer enorme. Pesado. Desproporcional. A moto sofria nas subidas, tremia nas curvas, quase desistia nas rodovias. Passei por cidades pequenas onde as pessoas me davam informações erradas, me exploravam, me confundiam. Mesmo assim eu seguia.
O detalhe mais estranho era que eu não sabia para onde estava indo.
Apenas continuava.
Em determinado momento do sonho, cansado, pensei: “Por que estou arrastando esse trailer?”
E então compreendi.
A moto era eu.
O trailer eram os pesos que carrego sem necessidade.
Meus próprios problemas caberiam numa mochila pequena. Mas há anos arrasto culpas alheias, ingratidões, conflitos familiares, expectativas dos outros, relações cansadas, pessoas que se alimentam emocionalmente da minha energia.
Talvez Sartre tivesse razão quando disse que “o inferno são os outros”. Não porque as pessoas sejam más o tempo todo, mas porque às vezes permitimos que elas ocupem espaço demais dentro de nós.
Existem pessoas que entram em nossa vida como passageiros, mas exigem ser rebocadas.
E quanto mais peso acumulamos, mais difícil se torna qualquer subida.
Talvez seja por isso que tanta gente esteja cansada sem entender o motivo. Não é a estrada. Não é a vida. É o excesso de bagagem.
O desapego não é frieza. É sobrevivência.
Desapegar é olhar para certas cargas emocionais e finalmente admitir: “Isso não me pertence.”
Há dores que devemos acolher. Outras, precisamos devolver.
A liberdade talvez comece assim: não quando encontramos um destino, mas quando temos coragem de desengatar o trailer. Me senti um psicanalista nesse instante! Está precisando de Terapeuta? Risos….