Naquele dia eu aprendi que existem coisas que os homens observam, mas não decifram.
Ela dirigia com uma das mãos e, com a outra, desenhava o rosto diante do pequeno espelho do carro. O trânsito seguia lento, e eu apenas assistia à transformação acontecer em silêncio. Primeiro o batom. Depois os olhos. Um perfume leve preenchendo o interior do automóvel. Pequenos gestos precisos, quase sagrados.
É curioso como algumas mulheres conseguem construir um universo inteiro dentro de dez minutos.
Eu observava tudo com a lógica objetiva dos homens.
Estávamos indo para a faculdade de Biomedicina. Dentro do laboratório não seria permitido maquiagem, perfume, adornos. Nada que pudesse causar contaminação. Ela sabia disso. Eu sabia disso.
Mesmo assim, ela continuava.
Quando chegamos, aconteceu o que eu já esperava: ela começou a remover cuidadosamente tudo aquilo que havia acabado de fazer. O batom desapareceu do rosto. A sombra dos olhos virou apenas lembrança no algodão. O perfume ficou para trás no ar do carro.
Então perguntei, sinceramente intrigado:
— Se você iria limpar tudo logo depois… por que fez?
Ela sorriu como quem escuta uma pergunta impossível de responder para um homem.
E disse:
— Quando você nascer mulher, você vai entender.
Na época eu ri. Achei engraçada a resposta.
Hoje, tantos anos depois, ela já não está entre nós… mas aquela frase permanece viva.
Talvez porque eu tenha compreendido tarde demais que ela não falava sobre maquiagem.
Falava sobre identidade.
Existem preparações que não dependem do destino. Há gestos que não são inúteis apenas porque são passageiros. Algumas mulheres não se arrumam para serem vistas; arrumam-se para se sentirem existindo.
O homem costuma dar sentido às coisas pela utilidade.
A mulher, às vezes, dá sentido pela experiência.
Ela não se maquiava para a faculdade.
Ela se maquiava para si mesma durante o caminho.
E talvez a vida seja exatamente isso:
há pessoas que vivem apenas o resultado final, enquanto outras conseguem encontrar beleza até nos minutos provisórios entre a partida e a chegada.
Hoje, quando lembro daquela cena, não penso mais em batons ou perfumes.
Penso na delicadeza de certas coisas que nós, homens, demoramos uma vida inteira para compreender.
E penso nela.
Ainda sorrindo dentro daquele carro.
Ainda me deixando perguntas que sobrevivem ao tempo.
Sebastião Neiva
Texto dedicado a uma amiga de verdade: Dra. Cláudia Maria Duque. Isso se passou nos anos 80.