Se chamava Izadora.
Um nome bonito. Rimava com aurora, com agora, com Pirapora…
Nome de princesa de desenho animado. Mas Izadora estava longe de qualquer reino encantado.
Era uma boneca velha.
Cega de um olho, faltando um braço e uma perna. Os cabelos haviam desistido de obedecer há muito tempo e viviam armados, embolados, parecendo pequenos ninhos cansados pelo tempo. Mesmo assim, era a preferida.
A menina de três anos não soltava Izadora por nada. Carregava a boneca pela casa, dava comida imaginária, colocava para dormir e conversava baixinho com ela nos cantos da sala como se dividissem segredos antigos.
E o mais estranho era que havia muitas outras bonecas.
Bonecas novas.
Bonitas.
Perfumadas.
Inteiras.
Algumas falavam quando apertava a barriga. Outras fechavam os olhos ao deitar. Havia uma com vestido brilhante e outra que vinha numa caixa cor de rosas tão bonita que ninguém tinha coragem de tirar.
Mas a menina escolhia a Izadora.
Sempre Izadora.
Os adultos achavam graça. Diziam que criança é assim mesmo, que se apega às coisas mais estranhas. Depois voltavam para suas conversas importantes, seus relógios, boletos, fofocas e preocupações de gente grande.
Mas eu não conseguia esquecer aquilo.
Talvez porque a menina também andasse quase sempre descabelada, usando roupas já gastas, joelhos ralados e um sorriso torto de quem ainda não aprendeu a esconder tristeza.
Talvez houvesse uma identificação silenciosa entre as duas.
Ou talvez a menina enxergasse alguma coisa que os adultos desaprenderam de ver.
Há mistérios escondidos nas escolhas humanas.
Leio às vezes sobre livre-arbítrio e determinismo. Uns dizem que escolhemos nossos caminhos. Outros afirmam que já chegamos moldados ao mundo, empurrados por traumas, afetos, ausências e heranças invisíveis.
Mas então me lembro da menina e da Izadora.
O que faz alguém escolher o imperfeito?
Por que algumas pessoas entram em nossa vida mesmo carregando pedaços faltando?
E por que outras, tão impecáveis por fora, nunca conseguem permanecer?
Será que escolhemos nossos filhos?
Uns tranquilos, outros perdidos em si mesmos.
Uns parecidos conosco, outros tão diferentes que parecem ter vindo de outro planeta.
E os amigos?
E os amores?
Quem escolhe quem?
Talvez ninguém escolha de verdade.
Talvez sejamos apenas reconhecidos.
Quem sabe a menina não via defeitos em Izadora.
Quem sabe via sobrevivência.
A boneca continuava existindo apesar do tempo, das quedas, das perdas. Faltava-lhe quase tudo, mas ainda era amada.
E isso talvez bastasse.
Naquela tarde, vi a menina abraçada com Izadora perto da janela. O sol atravessava os cabelos embolados da boneca como se tentasse lhe devolver alguma dignidade esquecida.
Então pensei em mim.
Nas partes que o tempo me arrancou.
Nas ausências que escondo.
Nas imperfeições que carrego tentando parecer inteiro diante das pessoas.
E pela primeira vez tive medo.
Medo de ser a Izadora na vida de alguém.
Aquela presença quebrada que ninguém escolhe quando existem versões mais bonitas ao redor.
Mas depois a menina beijou a testa da boneca com uma delicadeza que quase doeu em mim.
E talvez tenha entendido, naquele instante, uma coisa que filosofia nenhuma conseguiu explicar completamente:
às vezes, o amor não escolhe o que é perfeito.
Escolhe justamente aquilo que continua ali… mesmo depois de ter se quebrado.
Obs. Essa criança é minha filha, hoje com 30 anos.