Sebastiao
E a vida continua
Capa Textos Fotos Perfil Livro de Visitas Contato
Textos
VEÍCULO HUMANO
Há dias em que não pego.
Viro a chave e nada.
Talvez bateria fraca.
Talvez pane elétrica
nesse emaranhado de neurônios alucinados.

Ou apenas falta de combustível.
A vida consome muito
e os postos andam longe.

Quando pego,
O escapamento ronca uma fome antiga.
Abro a porta do carro,
abro a porta do dia,
e custamos ambos a funcionar.

O para-brisa embaçado
deixa o mundo indeciso.
Não sei se limpo os vidros
ou os olhos.

Há um trânsito enorme
dentro da minha cabeça.
Buzinas de lembranças,
engarrafamentos de pensamento,
acidentes entre o que fui
e o que restou.

Mas a rua exige movimento.
Engato a primeira
como quem aceita um destino pequeno.
Depois a segunda.
Depois terceira,  na tentativa de chegar ao futuro.

A vida não reduz a velocidade para esperar motores cansados.

Já fui carro de passeio.
Hoje sou veículo antigo,
lataria com ferrugens discretas, quilometragem alta e peças difíceis de encontrar.

O óleo engrossou nos invernos. As juntas estalam nas curvas. Há um ruído estranho no motor que os mecânicos da alma não conseguem localizar.

Mesmo assim, sigo.
Não por coragem.
Coragem é palavra para as novas tecnologias.

Sigo porque ficar parado
também enferruja. E no fim,
talvez viver seja apenas isto: um automóvel velho
atravessando a neblina,
sem muita certeza do caminho, mas ainda capaz
de reconhecer a estrada.


Sebastião Neiva
Sebastião Neiva
Enviado por Sebastião Neiva em 23/05/2026
Copyright © 2026. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Comentários
Capa Textos Fotos Perfil Livro de Visitas Contato