Há dias em que não pego.
Viro a chave e nada.
Talvez bateria fraca.
Talvez pane elétrica
nesse emaranhado de neurônios alucinados.
Ou apenas falta de combustível.
A vida consome muito
e os postos andam longe.
Quando pego,
O escapamento ronca uma fome antiga.
Abro a porta do carro,
abro a porta do dia,
e custamos ambos a funcionar.
O para-brisa embaçado
deixa o mundo indeciso.
Não sei se limpo os vidros
ou os olhos.
Há um trânsito enorme
dentro da minha cabeça.
Buzinas de lembranças,
engarrafamentos de pensamento,
acidentes entre o que fui
e o que restou.
Mas a rua exige movimento.
Engato a primeira
como quem aceita um destino pequeno.
Depois a segunda.
Depois terceira, na tentativa de chegar ao futuro.
A vida não reduz a velocidade para esperar motores cansados.
Já fui carro de passeio.
Hoje sou veículo antigo,
lataria com ferrugens discretas, quilometragem alta e peças difíceis de encontrar.
O óleo engrossou nos invernos. As juntas estalam nas curvas. Há um ruído estranho no motor que os mecânicos da alma não conseguem localizar.
Mesmo assim, sigo.
Não por coragem.
Coragem é palavra para as novas tecnologias.
Sigo porque ficar parado
também enferruja. E no fim,
talvez viver seja apenas isto: um automóvel velho
atravessando a neblina,
sem muita certeza do caminho, mas ainda capaz
de reconhecer a estrada.