Sebastiao
E a vida continua
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O DIA EM QUE O PEIXE PESCOU
Não era um martim-pescador.
Também não possuía o mergulho elegante das aves nascidas para as águas. Era apenas um pássaro comum,  desses que a natureza desenha para os galhos, os frutos e os cantos da manhã.
Mas aprendera a pescar.
Talvez por necessidade. Talvez por curiosidade. Ou talvez porque a vida, quando aperta, obriga até os mais improváveis a reinventarem o próprio destino.
Vivia à margem de um riacho silencioso, entre raízes tortas, sombras úmidas e galhos antigos que pareciam guardar segredos do tempo. Todas as manhãs repetia seu ritual com disciplina quase filosófica.
Primeiro, colhia uma pequena fruta da gameleira.
Depois, pousava num galho baixo, observava a correnteza e, com a precisão de um velho sábio, deixava a frutinha cair próxima da margem.
Os peixes, inocentes ou gulosos, vinham.
E então — inhac! — o pássaro desferia sua bicada certeira, apanhava o peixe e retornava triunfante ao galho.
A vida parecia resolvida.
Uma fruta por um peixe.
Um pequeno esforço por uma pequena recompensa.
Uma sabedoria prática que nenhum tratado de filosofia ensinaria melhor.
À tarde, repetia tudo novamente.
Claro que nem sempre dava certo. Às vezes o peixe escapava. Outras vezes a fruta afundava cedo demais. E havia aqueles peixes enormes, experientes, quase lendários, que observavam tudo lá do fundo sem jamais cair no truque.
Todo pescador, afinal, alimenta a eterna fantasia do peixe perfeito — justamente aquele que nunca consegue pegar.
Mas foi numa manhã tranquila que o inesperado aconteceu.
O pássaro lançou sua fruta e aguardou, imóvel, como fazia há tantos dias que já confundia hábito com eternidade.
De repente, a água escureceu.
Um peixe gigantesco surgiu das profundezas. Não veio atrás da fruta. Veio atrás do pescador.
Num salto brutal, devorou o pássaro inteiro.
Tudo aconteceu tão rápido que o riacho sequer teve tempo de se assustar. Restaram apenas algumas penas boiando na correnteza e a pequena frutinha girando sozinha sobre a água.
Talvez o grande erro do pássaro não tenha sido pescar.
Talvez tenha sido acreditar que dominava completamente aquilo que apenas aprendera a enganar.
Porque a vida tem dessas ironias discretas: quando pensamos conhecer todas as regras, ela troca silenciosamente os jogadores de lugar.
E naquele dia, pela primeira vez, o peixe saiu contando vantagem.

Sebastião Neiva
Sebastião Neiva
Enviado por Sebastião Neiva em 21/05/2026
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