Sebastiao
E a vida continua
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Textos

"X"

Tenho o costume de fazer um “X” nos dias do calendário.

Trabalho em escritório e aprendi cedo que a vida adulta se organiza em datas. O hoje importa, mas os próximos noventa dias também. Há boletos a vencer, cheques pré-datados, parcelas, impostos, despesas anuais. Tenho até aquela pastinha organizadora de documentos, dividida pelos dias do mês, como se a existência pudesse caber em pequenos compartimentos numerados.

Risco um dia. Pago uma conta. Programo outra.

E assim vou administrando o tempo como quem administra um caixa.

Outro dia parei diante do calendário e me perguntei: isso é prudência ou é ansiedade fantasiada de organização?

Percebi que, muitas vezes, não vivo na terça-feira. Vivo o boleto que vencerá daqui a noventa dias. Vivo a conta anual de dezembro. Vivo compromissos que ainda nem nasceram, enquanto o presente fica esperando na recepção, esquecido como um cliente sem senha.

Hoje venceu um boleto que parecia distante. Noventa dias atrás, ele era quase um futuro filosófico. Agora está aqui, sobre a mesa, exigindo pagamento. Foi então que senti um desconforto estranho: o tempo não passa apenas nos relógios. Ele passa em mim.

Cada “X” no calendário é também um dia a menos no estoque invisível da existência.

Os estoicos talvez dissessem que meu erro não está em organizar as contas. Sêneca nunca condenou a prudência. O erro está em imaginar que controlar datas seja controlar a vida. Podemos administrar vencimentos, mas não o amanhã. Podemos planejar o mês inteiro e ainda assim perder uma tarde inteira para a angústia.

Epicteto ensinava que algumas coisas dependem de nós; outras, não. Pagar a conta depende. O tempo continuar correndo, não.

Talvez a sabedoria esteja justamente aí: usar o calendário sem se tornar escravo dele. Fazer o “X” no dia, mas sem riscar junto a alegria daquele instante. Planejar o futuro sem hipotecar o presente.

Porque no fim, chegará mesmo o dia em que alguém talvez precise riscar o calendário por nós. Não por incompetência, mas porque ninguém é insubstituível.

E curiosamente, é essa fragilidade que deveria nos ensinar a olhar o quadrado de hoje com mais delicadeza.

O estoico não despreza o amanhã. Apenas não entrega a ele toda a própria vida.

Sebastião Neiva

Sebastião Neiva
Enviado por Sebastião Neiva em 21/05/2026
Alterado em 21/05/2026
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