Sebastiao
E a vida continua
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Textos
ENTRE O SINO E A ENGRENAGEM
Na praça antiga, onde os pombos pareciam repetir os mesmos voos há séculos, dois homens discutiam sob a sombra de uma Acácia. Um dizia que o homem escolhia. O outro sorria como quem já sabia o fim da conversa.
— Se não houver escolha — disse o primeiro —, então não há culpa, nem mérito, nem pecado. Somos apenas folhas levadas pelo vento.
O segundo ajeitou os óculos lentamente.
— E quem disse que a folha escolhe o vento?
O sino da igreja tocou seis vezes. Um menino correu atrás de uma bola. Uma senhora derrubou frutas da sacola. Um cachorro latiu para o nada. A vida seguia, indiferente à filosofia dos homens.
O primeiro insistia em Agostinho de Hipona. Dizia que Deus dera ao homem o terrível presente da liberdade. Escolher era uma condenação silenciosa. Todo erro nascia dessa autonomia da alma. O homem podia amar ou destruir, subir aos céus ou afundar-se na lama. E justamente por poder escolher, carregava o peso da responsabilidade.
O segundo falava de Baruch Spinoza como quem descreve uma engrenagem invisível. Para ele, a pedra lançada ao ar, se tivesse consciência, acreditaria voar por vontade própria. Mas tudo obedecia à natureza das coisas, às causas ocultas, às correntes infinitas do universo. O homem chamava de “livre-arbítrio” apenas a ignorância das forças que o moviam.
A discussão durou até o entardecer.
Então veio o silêncio.
Porque, no fundo, ambos temiam a mesma coisa.
O homem de Agostinho tem medo da liberdade absoluta: a vertigem de saber que poderia ter sido diferente.
O homem de Spinoza teme o contrário: descobrir que nunca houve escolha alguma.
A praça esvaziou-se devagar. Restou apenas o vento atravessando as folhas das árvores, como se o universo também hesitasse entre ser destino… ou decisão.


Sebastião Neiva
Sebastião Neiva e IA
Enviado por Sebastião Neiva em 21/05/2026
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