Envelhecer foi uma arte silenciosa que tive que aprender e aceitar.
Tudo começou com o espelho. Ele me devolvia um rosto que ainda era o meu , mas já carregava pintas e pequenas manchas. Sulcos ao lado dos olhos, gestos lentos, um cansaço que não existia antes.
Mas as mudanças do corpo não me preocupavam tanto. O mais estranho foi perceber que dentro de mim ainda morava uma alma jovem, inquieta e cheia de perguntas. Era como se houvesse uma criança escondida atrás de cada ruga observando tudo com espanto. Como pode o tempo ter passado tão depressa assim? ainda ontem eu corria descalço pelas ruas sem asfalto do setor universitário!
“Envelhecer talvez seja isso: aprender a conviver com muitas versões de si mesmo sentadas à mesma mesa”
Quando jovem acreditava que viver era trabalhar e acumular. O envelhecimento me ensinou o contrário: viver é perder devagar e delicadamente. Perder a pressa, perder a vaidade, perder pessoas, perder sonhos, e as bobas ilusões. E no entanto, curiosamente, é quanto mais perdi, melhor enxerguei o verdadeiro sentido da vida.
Hoje há uma lucidez triste e bonita em meus olhos.
Hoje vejo o mundo como quem olha uma chuva pela janela: sem necessidade de possuí-la. Já não preciso vencer todas as discussões, não preciso provar nada para ninguém. Descobri no início da velhice que que tudo passa. E aquilo que não passa são os afetos sinceros, amizades sinceras, as lembrança boas, os gestos de ternura. Isso sempre habitará em meu coração.
O tempo age como o mar, vai retirando os excessos levando a espuma espalhando a areia, deixando apenas as conchas mais teimosas e resistentes que se fixaram firmemente na areia.
Hoje sou um colecionador de ausências. Há cadeiras vazias dentro de minha memória. Ouço vozes quando a saudade sopra. Há inúmeras pessoas que continuam vivas dentro de mim apenas porque ainda lembro a maneira exata como sorriam.
As vezes meus familiares se preocupam quando fico olhando demoradamente para o nada. Eles pensam que é um olhar vazio. Mas não é. Apenas estou conversando secretamente com tudo aquilo que já fui
Agradeço muito a Deus essa beleza quase sagrada em envelhecer sem endurecer, sem me tornar um velho ranzinza.
Porque o tempo pode enrugar a pele, reduzir movimentos, encurtar a visão, mas são os ressentimentos , as mágoas e o ódio que enrugam a alma. Conheço pessoas jovens já envelhecidas pela amargura. E há velhos iluminados como eu, que carregam nos olhos uma mansidão parecida com o fim de tarde.
No fim conclui que envelhecer não é caminhar para longe da vida. É caminhar para mais perto da essência.
Hoje sou como uma árvore antiga que já não preciso florescer o tempo inteiro para provar que estou vivo.
O mais estranho foi que percebi que envelheci, mas ainda moro em mim.