Sebastiao
E a vida continua
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Textos
EU AINDA MORO EM MIM
Envelhecer foi uma arte silenciosa que tive que aprender e aceitar.

Tudo começou com o espelho. Ele me devolvia  um rosto que ainda era o meu , mas já carregava pintas e pequenas manchas.  Sulcos  ao lado dos olhos, gestos lentos, um cansaço que não existia antes.

Mas as mudanças do corpo não me preocupavam  tanto. O mais estranho foi perceber que  dentro de mim ainda morava uma alma  jovem, inquieta e cheia de perguntas. Era como se houvesse uma  criança escondida atrás de cada ruga observando tudo com espanto. Como pode o tempo ter passado tão depressa assim?  ainda ontem eu corria descalço pelas ruas sem asfalto do setor universitário!

“Envelhecer talvez seja isso: aprender a conviver com muitas versões de si mesmo sentadas à mesma mesa”

Quando jovem acreditava que viver era trabalhar e  acumular. O envelhecimento me ensinou o contrário: viver é perder devagar e delicadamente. Perder a pressa, perder a vaidade, perder pessoas, perder sonhos, e as  bobas ilusões. E no entanto, curiosamente, é quanto mais perdi, melhor enxerguei o verdadeiro sentido da vida.

Hoje há  uma lucidez triste e bonita em meus olhos.

Hoje vejo o mundo como quem olha uma chuva pela janela: sem necessidade de possuí-la. Já não preciso vencer todas as discussões, não  preciso provar nada para ninguém. Descobri no início da velhice que que tudo passa. E aquilo que não passa  são  os afetos sinceros, amizades sinceras, as  lembrança boas, os gestos de ternura. Isso sempre  habitará em meu coração.  

O tempo age como o mar, vai retirando os excessos levando a espuma  espalhando a areia, deixando apenas as conchas mais teimosas e resistentes que se fixaram firmemente na areia.

Hoje sou um colecionador de ausências.  Há cadeiras vazias dentro de minha memória.  Ouço vozes   quando a saudade sopra.  Há inúmeras pessoas que continuam vivas dentro  de mim apenas porque ainda lembro a maneira exata como sorriam.

As vezes meus familiares se preocupam quando  fico  olhando demoradamente para o nada. Eles pensam que  é um olhar vazio. Mas não é.  Apenas estou conversando secretamente com tudo aquilo que já fui

Agradeço muito  a Deus essa beleza quase sagrada em envelhecer sem endurecer, sem me tornar um velho ranzinza.
Porque o tempo pode enrugar a pele, reduzir movimentos, encurtar a visão, mas são os ressentimentos , as mágoas e o ódio que enrugam a alma. Conheço pessoas jovens já envelhecidas pela amargura. E há velhos iluminados como eu,  que carregam nos olhos uma mansidão parecida com o fim de tarde.

No fim conclui que envelhecer não é caminhar para longe da vida. É caminhar para mais perto da essência.

Hoje sou como uma árvore  antiga que já não preciso florescer o tempo inteiro para provar que estou vivo.

O mais estranho foi que percebi que envelheci, mas ainda moro em mim.

Sebastião Neiva
Sebastião Neiva
Enviado por Sebastião Neiva em 10/05/2026
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