Sebastiao
E a vida continua
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A MULHER QUE O BOSQUE ESQUECEU
Havia um banco de cimento sobre a calçada.
À frente, um bosque antigo onde funcionava um pequeno zoológico. Ao fundo, separado apenas por um muro descascado, erguia-se o sanatório. Entre os bichos e os loucos existia apenas uma rua estreita, como se a cidade tivesse decidido reunir todas as criaturas incompreendidas num mesmo lugar.
Sentada no banco, de frente para o bosque, estava Leila.
Parecia concentrada em alguma coisa invisível. Seus olhos fixavam um instante fora do tempo. Às vezes sorria sozinha. Às vezes franzia a testa, como se escutasse vozes vindas das árvores.
Ela se sentia em casa.
Abanava as mãos para o leão preguiçoso que atravessava lentamente o cercado. Oferecia uvas imaginárias aos pássaros que pousavam perto dela. Conversava com o vento como quem conversa com velhos conhecidos.
Já estava acostumada àquela rotina: os animais diante dela e o mundo inteiro às suas costas.
Então ouviu uma sirene.
Virou-se devagar.
Uma viatura da polícia militar passava pela rua. Um soldado dirigia, outros dois vinham atrás. Entre eles, um homem magro, de cabeça baixa, mãos presas, barba crescida.
Leila arregalou os olhos.
Era Cristo.
Ela sentiu vontade de perguntar por que estavam prendendo o filho de Deus outra vez. Mas o coração endureceu dentro do peito e sua voz morreu antes de nascer.
Então começou a rezar a Ave-Maria que aprendera com a mãe, muitos anos antes de o mundo se tornar um lugar tão confuso.
Quando terminou a oração, já era hora de alimentar os animais.
Abriu um saco de pães amanhecidos e passou a dividir pequenas porções.
— Um para você… outro para você…
Os pardais se aproximaram primeiro. Depois um cachorro magro. Depois o ratinho Zilu saiu cauteloso de uma toca entre as raízes.
Leila sorriu.
— Você precisa fazer regime, Zilu. Daqui a pouco não cabe mais na sua casa.
O rato mastigou o pão sem dar importância ao conselho.
Mais tarde, Leila sentiu vontade de usar o banheiro.
Entrou pela pequena trilha da mata e desapareceu entre as sombras verdes. Caminhou até encontrar o banheiro dos seus sonhos: água cristalina, louças alvas, torneiras douradas, espelhos enormes onde sua imagem surgia limpa e majestosa.
Ali ela se lembrava de quem realmente era.
Uma princesa.
Talvez rainha.
Talvez santa.
Saiu dali desfilando devagar até reassumir o trono do seu banco de cimento.
Às vezes achava o doutor Jacinto um pouco louco.
Ele dizia:
— Leila, você é a rosa deste jardim.
Ela olhava o sanatório ao fundo.
Um jardim de corpos esquálidos, rostos apagados e almas dopadas. Gente andando em círculos pelos corredores como relógios quebrados.
Que espécie de jardim era aquele?
Um avião cortou o céu.
Leila levantou os braços e acenou.
— Boa viagem! Boa viagem para o Rio Grande!
Não sabia há quanto tempo estava ali.
Horas.
Dias.
Ou talvez anos inteiros.
No mundo de Leila, o tempo era um pano rasgado.
Um homem que passava pela rua diminuiu os passos.
Observou melhor aquela mulher magra falando sozinha no banco. Notou os pés descalços. As roupas hospitalares. O olhar perdido.
Então olhou para trás e viu o sanatório.
Sentiu um arrepio.
Atravessou a rua apressado e avisou aos funcionários.
Poucos minutos depois, dois enfermeiros surgiram no portão.
— Meu Deus… como ela chegou até aqui?
Um deles riu nervoso:
— Os loucos agora estão voando?
Leila fingiu não conhecê-los.
Virou o rosto.
Abraçou o saco de pães contra o peito.
Os homens se aproximaram.
— Vamos voltar, Leila.
Ela negou com a cabeça.
— Eu moro aqui.
— Vamos.
— Aqui é meu reino.
Tentaram segurá-la pelos braços.
Então a princesa desapareceu.
Leila virou fera.
Rosnou como a pantera do zoológico. Arranhou o ar. Debateu-se violentamente. Seus olhos ficaram amarelos de medo.
Os pássaros levantaram voo.
Zilu correu para a toca.
O leão rugiu ao longe.
Foi necessário contê-la numa camisa de força.
Enquanto era arrastada de volta ao sanatório, Leila ainda olhava para o bosque como quem olha para casa pela última vez.
Depois vieram os medicamentos.
As injeções.
Os corredores úmidos.
Os choques.
Duzentos dias de esquecimento forçado.
Duzentos dias apagando lentamente a mulher que conversava com bichos e enxergava Cristo dentro das viaturas.
Leila nunca mais voltou ao banco.
Nunca mais alimentou Zilu.
Nunca mais acenou aos aviões.
Alguns diziam que ela morreu.
Outros diziam que apenas desaprendeu o caminho do bosque.
Os jornais da cidade deram ao caso um nome pequeno e cruel:
“A Louca do Bosque”.
Mas os animais continuaram olhando, durante muito tempo, para o banco vazio.

Sebastião Neiva
Sebastião Neiva
Enviado por Sebastião Neiva em 07/05/2026
Alterado em 10/05/2026
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