Ele começou pelo azul do mar não o da superfície inquieta, mas aquele azul profundo onde moram os mistérios que ninguém nomeia. De lá tirou o teu olhar, claro, mas impossível de decifrar por completo.
Quando o sol ainda ensaiava existir, recolheu seus primeiros fios de luz
e, com paciência de quem sabe esperar, teceu teus cabelos em anéis dourados que parecem guardar manhãs inteiras.
Aproximou-se de uma rosa
não para colher sua beleza evidente, mas para compreender sua delicadeza silenciosa.
E assim nasceram teus lábios e esse perfume que não se explica, apenas se sente.
No meio de um coro invisível, escolheu não a voz mais forte, mas a mais doce, aquela que atravessa sem ferir. E colocou em ti esse som que não fala, mas que envolve.
Com notas dispersas pelo universo, compôs teu corpo
como quem organiza uma música viva, feita de pausas, curvas e movimentos.
Há em ti uma espécie de dança que não pede permissão para existir.
Observou as dunas,
essas que o vento molda sem jamais repetir,
e nelas encontrou o gesto exato para desenhar suas formas e movimentos contínuos, beleza que não se fixa.
Tomou do luar sua parte mais limpa, aquela que não ilumina o mundo, mas acalma quem olha. E assim surgiu teu sorriso, alvo, quase sereno, como se soubesse mais do que revela.
E ainda não era suficiente.
Reuniu forças que não cabem em palavras,
energia antiga, silenciosa,
dessas que sustentam estrelas e destinos,
e acendeu em ti uma alma
que não apenas encanta e
desperta.
Quando terminou,
não houve pressa nem anúncio.
Apenas chamou o homem
como quem chama alguém para ver algo raro.
E disse, sem grandiosidade:
FIZ PARA VOCÊ
E naquele instante,
pela primeira vez,
o homem compreendeu
que a perfeição não era ausência de falhas,
mas presença de encanto