Sebastiao
E a vida continua
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O PARADIGMA DO SOFRER
Sempre nos disseram que sofrer faz parte.
Que crescer dói.
Que amar cobra um preço.
Que evoluir exige lágrimas como pedágio inevitável.
E assim, aceitamos.
Mas, afinal… o que é sofrimento?
Talvez não seja a dor em si. A dor é um fato — um acontecimento bruto, inevitável como o tempo. O sofrimento, porém, parece ser outra coisa: é a permanência da dor dentro de nós. É quando não apenas sentimos, mas resistimos. Quando não apenas vivemos, mas nos agarramos ao que já deveria ter passado.
Sofrer é, muitas vezes, não soltar.
É transformar uma experiência em identidade.
Uma perda em prisão.
Uma memória em morada.
Os antigos já sussurravam isso, muito antes de nós. Sêneca dizia que sofremos mais na imaginação do que na realidade. Não porque a dor não exista, mas porque a ampliamos, antecipamos e prolongamos dentro da mente. Já Epicteto foi ainda mais direto: não são os acontecimentos que nos perturbam, mas os julgamentos que fazemos sobre eles.
Se assim for, o sofrimento não nasce do mundo — nasce da interpretação que fazemos dele.
E então surge algo curioso: a compensação.
Como se, ao sofrer, adquiríssemos algum direito invisível. Como se a vida nos devesse algo — consolo, recompensa, justiça. Sofremos e, silenciosamente, esperamos que o mundo perceba, que alguém reconheça, que algo venha equilibrar a balança.
Mas e se essa compensação for apenas mais um apego disfarçado?
E se o sofrimento persistir justamente porque ainda esperamos receber algo em troca dele?
Os estoicos talvez diriam: há coisas que dependem de nós — e há coisas que não dependem. O sofrimento se instala quando tentamos controlar o que não nos pertence, quando resistimos ao fluxo natural da vida e exigimos dela um roteiro mais gentil.
Talvez o maior paradigma seja acreditar que o sofrimento tem valor em si. Que ele nos engrandece, nos purifica ou nos aproxima de alguma verdade superior.
Talvez não.
Talvez o sofrimento seja apenas um eco — prolongado por nossa insistência em ouvir o que já cessou.
E quebrar esse paradigma não é negar a dor.
É permitir que ela cumpra seu ciclo… e vá embora sem deixar raízes.
Porque, no fundo, a vida não exige sofrimento.
Exige presença.
E há uma diferença imensa entre sentir profundamente…
e sofrer eternamente.
Sebastião Neiva
Enviado por Sebastião Neiva em 26/04/2026
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