É impossível ser pássaro
sem conhecer o ninho,
sem reconhecer o ramo,
sem se permitir construí-lo entre galhos frágeis.
É impossível ser humano
sem sentir a tessitura do tempo entre os dedos,
sem aceitar a breve permanência
no espelho silencioso da vida.
É impossível ser chuva
sem contar os pingos no telhado,
sem escorrer pelas ruas,
sem encharcar as roupas esquecidas no varal.
É impossível ser janela
sem se abrir para o infinito,
sem acolher, no olhar,
o que o universo insiste em oferecer.
É impossível ser lágrima
sem percorrer a face,
sem repousar, leve,
num lábio sedento de palavras ou de silêncio.
É impossível dizer palavras doces
sem tocar a memória do teu nome,
sem atravessar a luz do teu olhar.
É impossível abrir as portas do tempo
e apenas esperar,
enquanto o céu azul
atravessa, lento, diante de nós.
É impossível ser poeta
sem beber do cálice das pétalas,
sem aceitar os espinhos,
sem respirar o perfume da dor e da beleza,
e fazer do coração
uma morada.