Sebastiao
E a vida continua
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Textos
CIDADEZINHA QUALQUER
Quando cheguei lá, confesso: não estava em perfeito juízo. Na verdade, nem sei se estava em algum juízo. Foi como se a vida tivesse me dado um leve empurrão… ou um empurrão bem dado mesmo… e, quando abri os olhos, pronto: estava instalado numa cidadezinha onde até o vento parece pedir licença pra passar.
A primeira coisa que pensei foi:
O que estou fazendo aqui?
A segunda foi:
Será que ainda dá tempo de fingir que foi engano do GPS da existência?
Mas não dava. Eu já tinha feito negócios, acordos, planos… aquele pacote completo de decisões que a gente toma achando que está sendo muito esperto, quando na verdade está sendo apenas otimista demais.
O interior tem suas vantagens, não vou negar. Ar puro, silêncio… silêncio demais, inclusive. Um silêncio tão grande que qualquer cochicho vira manchete. Lá, uma conversa baixa na padaria às 7h da manhã vira documentário completo às 9h, com trilha sonora, elenco ampliado e roteiro adaptado.
E foi assim que descobri um talento oculto em mim: o de ser personagem involuntário.
Porque no interior, meu amigo, você não vive, você é acompanhado.
Você não chega,  você dá entrada no sistema.
Você não erra,  você fornece conteúdo.
A pressão não é só social, é quase um reality show sem prêmio final.
“Você viu fulano?”
“Dizem que…”
“Mas eu ouvi falar que…”
E pronto: você já tem uma biografia alternativa circulando.
Nunca me adaptei. Passei anos com uma mala invisível pronta, esperando o dia de voltar para minha cidade natal. Aquele sonho bonito da riqueza no interior… ah, esse é ótimo! Lá você é quase um magnata. Volta pra capital e descobre que sua fortuna dá, com sorte, pra comprar um bom susto.
É uma matemática curiosa:
No interior, você soma.
Na cidade grande, você descobre que estava subtraindo sem saber.
E tem outra coisa: a tal da desatualização. Quando você volta, percebe que o mundo andou de avião enquanto você estava treinando caminhada lenta na praça central.
Mas nem tudo foi perda. Aprendi muito, sim senhor.
Aprendi sinuca (perdi mais do que ganhei, mas com elegância).
Aprendi baralho (principalmente a arte de blefar sem saber o que está fazendo).
E, principalmente… aprendi a fofocar.
Não me orgulho, mas também não nego: sobrevivi.
Hoje olho pra trás e penso que, apesar de ter sido um dos grandes arrependimentos da minha vida, aquela fase teve seu valor. Porque a vida, essa professora meio doida, não leva a gente só pra onde quer,  leva pra onde precisa.
E eu precisei.
Precisei aprender a rir de mim mesmo, a entender que nem todo lugar é destino,  às vezes é só um desvio pedagógico.
E ainda bem que nada é pra sempre. Nem a fase difícil, nem a cidadezinha qualquer… nem a fama de personagem principal do “Jornal do Bairro”.
Mas confesso: se alguém me convidar pra morar no interior de novo…
eu peço o endereço antes. E, se tiver mais de uma praça e menos de três fofoqueiros oficiais, aí a gente conversa


Sebastião Neiva
Sebastião Neiva
Enviado por Sebastião Neiva em 02/04/2026
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