Hoje resolvi dar uma olhada numa gaveta onde guardava bilhetes, cartas e poesias.
Estavam guardados na gaveta do meu guarda-roupas. Aquela gaveta que eu evitava abrir, pois ali moravam meus dias que não voltam mais.
Bordas amareladas, todas dobradas com capricho, como se esperassem a minha coragem chegar.
Sentei-me na cama.
O velho ventilador soprava um ar morno, e o vento agitava as folhas em minhas mãos, como se tentasse evitar que as lê-se.
A primeira carta começava assim: “Hoje pensei em você “
E era verdade, pensei muitas vezes. Pensei em cada detalhe de nós, conversas cheias de entusiasmo, o nosso olhos nos olhos que falavam mais que palavras.
Escrevi aquelas cartas nas noites em que a solidão gritou alto demais. Escrevi quando entendi que nem todo amor permanece ao nosso lado.
Nunca as enviei!
Na época tinha medo de me expor, orgulhoso como sou. Hoje acredito que era uma maturidade disfarçada. Pois nem toda carta precisa chegar..
Enquanto lia, fui percebendo que nunca esperei volta. Que cada carta era um rito de passagem. Cada frase era um desapego e cada envelope fechado era um adeus.
Escrever foi a única maneira que encontrei para ocupar aquele vazio.
Dobrei as cartas novamente e foi um momento de imensa gratidão. Elas cumpriram seu papel, não foram enviadas, mas me ajudaram a atravessar e vencer a ausência.
Quando fechei a gaveta entendi o verdadeiro sentido do desapego. Desapegar não é esquecer e nem negar, mas libertar serenamente aquilo que já cumpriu seu papel.
A tarde continuava morna,
O ventilador girava, olhei profundamente para a gaveta e senti que ela não era mais ausência, mas amadurecimento.
Há cartas que nunca enviamos e ainda assim,
Chegam.. .