Sebastiao
E a vida continua
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Textos
OLHE PARA O ALTO
A lagarta olhava para o alto, não porque negava o chão, mas porque algo dentro dela não cabia na terra.

Rastejava entre restos, sentia o cheiro ácido da decomposição,  o peso de tudo que apodrece e se perde no pó.

Diziam-lhe,
Sonhadora, ingênua, não vês que nasceste para o chão.

Mas havia algo em seu interior que ela não sabia explicar. Uma vaga lembrança,  uma certeza sem provas. Como se sentisse um chamado do céu.

Suportava,
Comia folhas amargas,
Rastejava pelo chão,  mas sua intuição lhe dizia que aquilo era temporário.

Então veio o enrijecimento,
Veio a imobilidade e de repente tudo se transformou em silêncio.

Perdeu os movimentos
Perdeu o mundo
Perdeu até a si mesma.

Quem olhava por fora dizia:
Morreu!
Mas por dentro algo invisível acontecia.

Durante dias nenhum sinal de vida,
Nenhuma resposta, o silêncio continuava.

A metamorfose acontecia em silêncio!

E quando o invólucro se abriu, não era mais uma lagarta rastejante.
Era uma borboleta com asas sedosas e coloridas.

A vida não termina
Apenas muda de dimensão é como passar do estado sólido para o gasoso.

Talvez sejamos assim também…

Habitamos corpos como se habita um casulo.
Sentimos o cheiro do mundo à nossa volta. Nós chamam de sonhadores quando falamos da vida eterna.

Mas há algo em nós que nos convida a olhar para o alto.

E quando vier a paralisia final. Quando os sentidos apagarem e parecer que tudo terminou, talvez estejamos apenas rompendo o casulo.

E nesse momento iremos perceber que sempre tivemos asas.

Sebastião Neiva
Sebastião Neiva
Enviado por Sebastião Neiva em 20/02/2026
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