Sebastiao
E a vida continua
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CÁLICE (Chico e Gil)
CÁLICE (CHICO E GIL)

Pai,  afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue
Como beber dessa bebida amarga
Tragar a dor, engolir a labuta
Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta
Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada prá a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa
De muito gorda a porca já não anda
De muito usada a faca já não corta
Como é difícil, pai, abrir a porta
Essa palavra presa na garganta
Esse pileque homérico no mundo
De que adianta ter boa vontade
Mesmo calado o peito, resta a cuca
Dos bêbados do centro da cidade
Talvez o mundo não seja pequeno
Nem seja a vida um fato consumado
Quero inventar o meu próprio pecado
Quero morrer do meu próprio veneno
Quero perder de vez tua cabeça
Minha cabeça perder teu juízo
Quero cheirar fumaça de óleo diesel
Me embriagar até que alguém me esqueça
CHICO BUARQUE E GILBERTO GIL


Análise da música:

A música “Cálice “ é uma metáfora do sofrimento imposto pelo regime militar ao povo brasileiro.
De início nos remete ao sofrimento bíblico quando Jesus disse: “Pai afasta de mim esse cálice “, mas remete também pela dor coletiva que precisou ser engolida por nossa gente.
Quando o cálice se transforma em “cale-se” há um aprofundamento da metáfora,  porque o sofrimento não é apenas físico, mas uma interdição da palavra.  E calar naquele tempo não era só ausência de som, mas uma violência sobre a consciência, moldando pensamentos e limitando o existir.
O vinho tinto símbolo da vida e das comunhão surge como algo que sufoca, que desce garganta abaixo,  mostrando que o deveria nutrir se converte em opressão.
A música nos mostra uma anestesia moral, a replicação que faz da violência uma coisa moral. Porque o sujeito  aprende a viver como se o sofrer fosse normal.
Assim,  Cálice revela a opressão eficaz, aquela que ensina a calar. E quando perdemos o direito de falar,  existimos pela metade.
Além disso Cálice faz críticas ao modelo de governo aplicado.
“De muito gorda a porca já não anda “ Brasil e as dívidas externas. “ De muito usada a faca já não corta “ Crítica à censura.
Conclusão
Cálice é uma das músicas mais densas da MPB, nasce de um choque entre duas forças opostas: a palavra e a censura , o grito e o silêncio imposto. A canção diz mais nas entrelinhas do que nos versos. Cada metáfora é uma estratégia de resistência.  Por isso, Cálice não é um simples protesto,  mas um documento existencial.  Foi uma época em que a palavra adoeceu e um povo adoeceu também.

Sebastião Neiva
CHICO BUARQUE E GILBERTO GIL
Enviado por Sebastião Neiva em 02/02/2026
Alterado em 02/02/2026
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