Sebastiao
E a vida continua
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Textos
A ÚLTIMA CANÇÃO
Éramos dois rapazes que acreditavam que a noite tinha alma. Não era somente escuridão,  era um palco. E sobre esse palco improvisado, iluminado por lâmpadas incandescentes e mesas cheias de sonhos, fazíamos nascer música. Dois violões, duas vozes, e a impressão ingênua de que enquanto cantássemos juntos, nada de mal poderia acontecer.
A gente cantava e ria,  e às vezes chorava também. Chorávamos porque algumas canções pedem lágrimas, e porque a vida, vez ou outra, exige que a gente lave a alma. Mas mesmo o choro era bonito quando estávamos afinados.
Você sempre dizia que música é ponte. Eu achava que era  barco. No fim, era tudo: o que nos unia, o que nos carregava, o que nos mantinha vivos até onde deu.
Mas veio aquela noite. A noite que não era para ser diferente das outras, mas foi. Uma noite em que um homem sem rumo, bêbado e inconsequente, achou que podia decidir o destino de outro,  o seu,  porque você se recusou a cantar aquilo que ele queria ouvir. Era sertanejo, e você simplesmente não gostava. E por causa de um gosto, de um capricho, de um nada, ele apagou a sua voz.
O violão caiu das suas mãos. E da minha também.
Eu, que sempre tive música na garganta, descobri que ela podia desaparecer. Desde então, cada noite ficou muda, e cada corda ficou fria como um quarto vazio. A música perdeu brilho, perdeu cor e perdeu você. E sem você, cantar deixou de fazer sentido. Encostei o violão como quem encosta um corpo querido para o último adeus.
Dizem que o tempo cura. Mas o tempo não conhece certas dores, não entende certas amizades. Não sabe o que é cantar em duas vozes e de repente ter que inventar uma harmonia sozinho.
Ainda assim, hoje tento contar a sua história. Porque alguém precisa saber que você partiu por amar a música, por respeitar ela, por não se curvar ao gosto de um estranho. Você não morreu por uma canção recusada: morreu porque vivia de forma íntegra. Porque sua dignidade era mais forte que o álcool de um covarde.
E talvez, só talvez, escrever seja a maneira que encontrei de cantar de novo.
Não com a voz.
Não com o violão.
Mas com a memória.
Porque essa, meu amigo… essa ninguém me furta.

Sebastião Neiva
Sebastião Neiva
Enviado por Sebastião Neiva em 29/11/2025
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