Era um domingo de sol preguiçoso quando decidi, junto com um amigo, matar o tempo em um boteco de esquina. Nada de especial no ar: apenas o tilintar de copos, o cheiro de cerveja recém tirada e o burburinho de conversas espalhadas.
Assim que cruzei a porta, fui surpreendido por um gesto inesperado. Uma mulher alta, de pele clara e sorriso irresistível avançou em minha direção. Antes mesmo que eu pudesse entender, me envolveu num abraço firme, quase íntimo, e com um brilho travesso nos olhos me chamou pelo nome:
— Clóvis!
Gelei. Não me chamo Clóvis. Mas o aperto de seus braços e a intensidade de sua presença me fizeram hesitar. Antes que eu pudesse corrigi-la, ela me envolveu novamente e, num sussurro que só meus ouvidos acolheram, deixou escapar:
— Cai na minha que você vai se dar bem.
Naquele instante, resolvi não contrariar o destino. Vesti a máscara de Clóvis.
Com naturalidade, ela me puxou até um senhor idoso que bebia sozinho e, com uma doçura ensaiada, me apresentou:
— Esse é o meu primo Clóvis, filho da tia Margarida.
O velho pareceu satisfeito com a história. Mais tarde, ela me confessou:
— Te usei para escapar daquele coroa.
E sorriu, como quem entrega um segredo, mas ainda guarda o essencial.
Meu amigo, sempre atento, percebeu o rumo da noite. Sem uma palavra, deslizou a chave do carro por debaixo da mesa. Era um sinal de cumplicidade, como se tivesse lido nas entrelinhas o que estava prestes a acontecer.
O resto se desenrolou como um delírio: eu e aquela mulher, cujo nome ela deixou escapar como Olívia — se é que era mesmo Olívia —, vivemos uma tarde-noite que se confundiu com eternidade. Entre risos, beijos e silêncios cúmplices, parecia que o tempo tinha deixado de existir.
Depois disso, voltei muitas vezes ao mesmo boteco. Esperei entre mesas e copos, vaguei por domingos e noites, em busca de sua presença. Mas ela nunca mais apareceu.
Restou-me apenas a lembrança de um abraço inesperado e de uma promessa sussurrada ao pé do ouvido.
Nunca mais vi Olívia.
Se é que realmente se chamava Olívia.