Luiz e Cláudia haviam se amado por quase dois anos. Não foi um amor sem tropeços, mas intenso o bastante para deixar marcas. Quando decidiram terminar, parecia a decisão mais racional, cada um seguiria seu caminho, sem cobranças, sem dramas.
Mas as noites seguintes provaram o contrário. O silêncio da casa pesava, a cama parecia maior do que era, e o coração de Luiz insistia em lembrar dos detalhes mais banais: o jeito de Cláudia mexer no cabelo, a risada espontânea, a mania de organizar os talheres.
Numa dessas madrugadas de solidão, ele se cadastrou em um site de relacionamentos. Criou um perfil, mas com um detalhe: não se apresentou como Luiz. Escolheu "Thiago", talvez por medo de se expor, talvez por vontade de ser alguém diferente.
Dias depois, começou a trocar mensagens com Lúcia. A conversa fluiu fácil, leve, como se já se conhecessem de antes. Riram das mesmas coisas, compartilharam confidências, planejaram um encontro.
O ponto de encontro foi um parque no fim da tarde. Luiz — ou melhor, Thiago — chegou ansioso, ajeitando a gola da camisa.
E então a viu.
"Lúcia" era Cláudia.
Por um instante, ambos ficaram imóveis, como se o tempo tivesse pregado uma peça. Um sorriso tímido brotou no rosto dela. Ele sentiu o coração bater como da primeira vez que se viram.
— Então… você é o Thiago? — perguntou Cláudia, com um brilho malicioso nos olhos.
— E você… é a Lúcia? — respondeu Luiz, meio sem graça.
Riram juntos. E, como num reencontro marcado pelas ironias do destino, caminharam lado a lado pelo parque.
No fim, a mentira de Luiz não o afastou da verdade. Apenas a conduziu de volta a ele. Porque, quando o amor ainda tem raízes, nem mesmo os disfarces conseguem impedir que floresça.