Na sala, em frente à televisão, repousa a poltrona vinho. Foi ali que minha mãe se acomodava para ver o mundo passar, entre novelas, noticiários e os silêncios que só ela sabia preencher. Um pouco escondida atrás da porta, mas sempre no ponto certo, era como se a casa tivesse sido pensada para aquele encontro entre ela e o móvel, eram cúmplices silenciosas de tantas tardes.
Na poltrona, minha mãe fumava devagar, soltando a fumaça em pequenos véus que pareciam levar embora pensamentos que nunca se revelaram por inteiro. Era ali também que o crochê nascia em suas mãos habilidosas, ponto a ponto, como se expressa-se paciência no tecido do tempo. Entre linhas, cigarros e suspiros, ela refletia sobre a vida com a serenidade que só as mães sabem cultivar.
Foi naquela mesma poltrona que ouvi suas últimas palavras. Simples, mas plenas de ternura:
— Você está muito bonito com essa roupa.
Nada mais precisava ser dito. Como se naquele elogio estivesse embutida toda a aprovação, todo o carinho e toda a despedida que ela não poderia prolongar.
Minha mãe se foi. A poltrona ficou. O tecido já não tem o mesmo brilho de antes, carrega as marcas do tempo e da ausência. Ainda assim, ocupa seu lugar na sala, imponente como uma guardiã de memórias.
Há quem veja apenas um móvel gasto. Eu vejo a presença viva de quem já não pode mais ficar. Quando passo por ela, sinto que minha mãe ainda me acompanha. Às vezes, parece até que vou encontrá-la ali, cigarro entre os dedos, linhas no colo, olhar distante.
A poltrona vinho é mais do que objeto. É altar um silencioso. É um retrato sem moldura. É testemunha da vida e guardiã da ausência. Nela não se senta apenas o corpo: senta-se também as memórias vivas.
E enquanto ela estiver ali, no mesmo canto da sala, minha mãe não terá partido por completo.