Qual a pior cegueira, a dos olhos ou da alma? Há um ditado popular que diz: “O pior cego é aquele que não quer ver “.
Dizem que os olhos são as janelas da alma. E se fecharmos as janelas, o que resta?
Resta a casa inteira!
O que um cego vê?
Vê com os ouvidos, o som das folhas que rolam com o vento, para ele não é um simples ruído, é sabor de outono se arrastando pelas calçadas.
Vê com o tato, uma xícara quente entre as mãos não é um simples chá ou café, mas sim calor, aconchego para uma manhã chuvosa.
Vê com o olfato, o pão recém-saído do forno, para ele se transforma em mapa em bússola. Pois cada cheiro é uma memória viva, um retrato feito com vapor.
O cego vê o que muitos não enxergam, porque ele decifra o mundo nas pontas dos dedos, a pele que arrepia diante das energias das pessoas. Para ele o tempo tem textura, a ausência de luz desperta outras presenças sutis.
Um sussurro, cuidado. Um som de ausência. E o silêncio denuncia uma alma triste.
Para os cegos os rostos das pessoas não são feitos de traços, mas de timbres, de pausas, de palavras e de intenções.
Ver, a final, não é apenas enxergar. Os cegos aprendem a pintar a vida com outros pincéis, a audição vira tinta, o tato sente o contorno e a intuição a luz.
A cegueira longe de ser escuridão total é um convite a abrir os olhos da alma.
O que um cego vê?
Talvez veja muito mais…
Talvez vejam aquilo que nós distraídos com a luz esquecemos de olhar.