Conheço todos os sabores da saudade.
O silêncio das mães que partiram,
o vazio dos pais que não voltam,
a ausência do filho que se despediu cedo demais.
Os amigos
uns poucos,
os mais intensos
deixaram-me órfão de partilhas.
O tempo, sem pressa,
foi levando a vida em prestações pequenas.
Roubou-me gestos,
rituais,
rotinas.
Ficaram as leituras,
as que acenderam minha alma,
e os olhos que, em algum tempo,
buscaram os meus com afeto e emoção.
Esse passado não se foi.
Ele vive aqui, comigo,
feito sombra fiel,
feito fundamento.
Luto todos os dias com o hoje.
Mas foi no ontem que fui esculpido.
Sonho nas músicas,
perco-me nas poesias,
como num sonho confuso,
onde tudo se mistura
mas nada se explica.
Meu corpo ainda sente
o que a alma um dia foi.
Não sou o passado
eu sei
mas é nele que a lâmina da saudade
corta mais fundo.