Textos
FIM DE FESTA
Cheiro de bebida derramada
como se o álcool tentasse limpar
alguma dor antiga.
Copos jogados no chão
meio vazios como quem os segurou.
Bitucas queimadas até a ponta,
como esperanças que se apagam devagar.
O cheiro ácido da maconha
sobe pelas narinas
e avisa que o estômago
não suporta mais a fuga.
Na pia, o acúmulo,
de restos, de gordura, de abandono.
As vasilhas falam do excesso
e da falta de cuidado.
O banheiro é confissão involuntária:
urina, vômito, perfume vencido,
intimidade demais para um espaço tão pequeno.
Gente desabando pelas beiradas,
com corpos presentes e almas adiadas.
Rostos borrados de maquiagem,
bolsas abertas como vidas
cheias de tudo que não preenche.
Ninguém celebra.
A música, alta demais,
serve para calar o silêncio interno.
A verdade?
Fica no canto da sala,
sentada, ignorada,
esperando que alguém a encare.
Somos humanos,
mas parecemos espectros
tentando tocar o que já não está aqui.
Talvez não estejamos em extinção,
mas sim,
perdendo lentamente
o hábito de sermos inteiros.
Tião Neiva
Sebastião Neiva
Enviado por Sebastião Neiva em 18/07/2025
Alterado em 18/07/2025
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