LUZIA DE TODOS OS SANTOS
Luzia nasceu no dia 13 de dezembro, dia de Santa Luzia — a santa da luz e da visão. Foi a vizinhança, curiosa e prestativa, que sugeriu o nome completo: Luzia de Todos os Santos. Afinal, a mãe dela era uma mulher de fé, diarista de mão cheia, conhecida por manter a dignidade mesmo com as mãos sempre cheias de sabão e o coração coberto de orações.
Viviam em uma casinha de madeira, pobre e limpa, onde a esperança morava na prateleira ao lado do feijão. Luzia tinha apenas duas roupas: uma para a semana e outra para os domingos, dia de missa e da sopa quente servida na paróquia. A mãe nunca faltava, e Luzia, pequena, ouvia os sermões como quem ouve as estrelas.
Mas a fé, às vezes, é testada. Aos nove anos, Luzia perdeu a mãe para uma pneumonia maltratada. Ficou só no mundo, mas não vazia. Ficou cheia das palavras da mãe:
— “Homem não presta, minha filha. E a vida... continua.”
Luzia aprendeu a viver de pequenos serviços: lavava quintais, catava latinhas, ajudava na feira. Nunca chorava por muito tempo. Aprendeu que choro demais dá fome.
Aos dezoito anos, surgiu a chance de trabalhar no lacticínio da cidade. Lá, ela conheceu a sensação de salário fixo, comprou uma bicicleta azul e algumas roupas novas , ainda baratas, mas sem remendos. Parecia que o mundo estava começando a sorrir.
Mas a felicidade, para os pobres, às vezes tem prazo curto.
Um dia, ao sair do trabalho, foi chamada à gerência. Encontraram um pedaço de queijo escondido em sua mochila. Luzia jurou inocência, mas não adiantou. Foi demitida por justa causa. Mais tarde, soube que foi uma armação — uma moça queria a vaga dela.
A pequena cidade virou um campo minado. Ninguém mais lhe deu trabalho. “Ladrãozinho de queijo”, murmuravam. Então, Luzia vendeu a bicicleta, as roupas boas e partiu para a cidade grande, com a coragem como guia e a memória da mãe no peito.
No início, morou debaixo de uma ponte, acolhida por uma mulher em situação de rua que a ensinou onde pedir, onde dormir, onde não pisar. Lá conheceu Jair, um servente simpático que trabalhava numa construção próxima. Jair lhe dava pão, histórias e promessas.
Quando descobriu a gravidez, Jair desapareceu. Pior: na obra ninguém jamais ouvira falar dele.
Homens não prestam. A vida continua.
Com a barriga crescendo, Luzia tentou conseguir emprego. Levou portadas, recusas, humilhações. Mas a luz da esperança só precisa de uma fresta.
Foi numa tarde de chuva que Dona Clotildes apareceu. Senhora idosa, olhos de vidro e alma grande, levou Luzia para casa e para a vida.
“Se for menino, chame de Lisandro. Era o nome do meu filho... faz dez anos que ele se foi.”
Lisandro nasceu forte e calmo. Cresceu ouvindo histórias de bondade e resiliência. Clotildes o amou como um neto, mas quis ser madrinha, não avó — talvez porque isso a fizesse continuar sendo mãe.
Lisandro aprendeu filosofia com Clotildes. Leu os livros que um dia foram do verdadeiro Lisandro. Pensou na vida, na injustiça, no destino. E perdoou — não os homens, mas o passado de sua mãe amada.
Quando Dona Clotildes faleceu, deixou tudo para o pequeno Lisandro. Com o que herdaram, Luzia decidiu transformar dor em abrigo: fundaram um albergue para recém-chegados do interior. Davam pão, roupa, orientação — e, sobretudo, respeito.
A cidadezinha ficou como um pesadelo distante, uma sombra da qual ela já não fugia. Hoje, Luzia de Todos os Santos vive com os olhos voltados para quem sofre. A mãe tinha razão — a vida continua. Mas Luzia aprendeu a dar a ela outro sentido.
E por onde passa, deixa a luz de Santa Luzia, acesa nos olhos de quem já não via mais saída.
Tião Neiva
Sebastião Neiva
Enviado por Sebastião Neiva em 17/07/2025