Sou aquele que fazia caretas para o espelho
e hoje o espelho se vinga de mim.
Onde ficaram os traços da juventude?
A pele já não estica,
os olhos ainda brilham, mas menos pelo futuro,
mais pelo que já foi.
Aquele forte aperto de mãos
hoje é um simples quebra-gelo,
um gesto educado, mecânico,
sem a vibração dos sonhos compartilhados.
Onde o sorriso doce e claro,
hoje amarelo e sem graça,
como um retrato antigo esquecido na gaveta.
O atleta disposto
hoje carrega pelancas de pura flacidez,
mas ainda caminha com dignidade,
ainda respira fundo,
ainda agradece o dia.
Apenas poucas coisas sobram,
mas na consciência,
a certeza firme de que tudo valeu a pena.
Viveria tudo outra vez,
mesmo os erros,
mesmo as dores,
porque foram eles que ensinaram
o valor do instante,
o silêncio da espera,
a beleza do efêmero.
Agora, não corro mais.
Observo.
Sinto.
Sou.
E nesse ser tranquilo,
há um sabor novo,
mais sereno,
mais inteiro,
mais verdadeiro.