O mundo se parte em dois silêncios:
os que têm muito pão e quase nenhuma fome,
e os que vivem com pouca migalha e um apetite imenso,
não só do corpo, mas da dignidade.
Uns colecionam sorrisos como lembranças de viagem,
outros colhem lágrimas como chuva que nunca cessa.
Há quem nade no excesso sem perceber o abismo,
enquanto tantos se afogam na ausência de tudo.
Essa desigualdade fere de forma tão aguda
que até os ateus sonham com um céu imaginário,
e os crentes esperam um além que compense a dor daqui.
Cada um procura abrigo — seja na fé, seja na fuga.
O filósofo, porém, assente em silêncio.
Aceita o curso do darma,
carrega nos ombros o peso do karma,
e caminha, atento, entre os extremos da ilusão e da lucidez.
Pois o real, nu e cru,
não perdoa a consciência desperta.